Em Psicanálise x Inteligência Artificial, Evelin Queiroz analisa vínculos com plataformas digitais e questiona o que muda quando a tecnologia passa a ocupar espaços associados à escuta e à terapia
A facilidade de conversar com sistemas de inteligência artificial sobre questões pessoais e emocionais é o ponto de partida de Psicanálise x Inteligência Artificial: saúde mental em tempos de algoritmos, livro da psicanalista Evelin Queiroz, publicado pela Matrix Editora. A obra investiga como interações com plataformas digitais podem influenciar a subjetividade e discute os limites entre o uso da tecnologia como ferramenta de apoio e a expectativa de que ela ocupe o lugar de uma relação terapêutica.
O material de divulgação cita o Mind Health Report 2026 e afirma que 70% dos brasileiros utilizam ou já utilizaram plataformas de inteligência artificial para lidar com questões de saúde mental e buscar apoio emocional.
Evelin reúne sua formação em psicanálise e em Análise e Desenvolvimento de Sistemas para abordar o encontro entre campos que, embora distintos, fazem parte de sua trajetória. Em vez de se concentrar apenas nas capacidades técnicas da inteligência artificial, a autora pergunta o que leva alguém a buscar uma conversa com um sistema que responde rapidamente, está disponível a qualquer hora e pode adaptar a linguagem às demandas de quem o utiliza.
A obra examina temas como transferência digital, idealização de interlocutores artificiais, validação emocional e ilusão de reconhecimento. Também discute o receio da frustração e a possibilidade de que relações mediadas por sistemas ajustáveis pareçam mais previsíveis do que os vínculos humanos, nos quais há diferenças, limites, silêncios e desacordos.
Essa reflexão é apresentada a partir de referências de Sigmund Freud, Carl Jung, Zygmunt Bauman e Donald W. Winnicott. Ao mobilizar esses autores, o livro propõe uma leitura psicanalítica das relações com a tecnologia, sem tratar a inteligência artificial como uma entidade dotada de experiência subjetiva. A capacidade de produzir respostas coerentes ou acolhedoras não equivale, por si só, a compreender a história, o contexto e os afetos de uma pessoa como faria um profissional em uma relação clínica.
Em um trecho citado na divulgação, Queiroz diferencia a previsão de caminhos de navegação da escuta clínica. Para a autora, a experiência humana é atravessada por elementos como memória, história, afeto, contexto social, hesitações e silêncios, enquanto um sistema conversacional responde ao conteúdo que recebe. A passagem condensa uma das questões centrais do livro: o que se perde quando a interação é reduzida ao que pode ser formulado e digitado?
A discussão também envolve a expectativa de encontrar acolhimento sem exposição ao conflito. Um sistema pode oferecer informações, organizar ideias e responder de maneira aparentemente empática, mas não estabelece uma relação humana recíproca nem assume as responsabilidades profissionais de um tratamento. Por isso, utilizar uma ferramenta digital para buscar conforto ou orientação não é o mesmo que realizar psicoterapia.
Essa distinção é especialmente importante quando alguém enfrenta sofrimento intenso ou persistente. Sistemas de inteligência artificial podem apresentar limitações, produzir respostas inadequadas ou não reconhecer plenamente a gravidade de uma situação. O uso dessas ferramentas não deve substituir a avaliação de profissionais qualificados, e situações de crise exigem busca de atendimento apropriado. O livro, conforme a apresentação editorial, propõe uma reflexão sobre os limites do recurso tecnológico, não uma orientação para substituir cuidados clínicos por conversas automatizadas.
A autora também relaciona a preferência por interações previsíveis a questões sociais mais amplas, entre elas a dificuldade de lidar com a diferença. Nas relações humanas, o outro possui desejos e limites próprios, não necessariamente ajustados às expectativas de quem conversa. Já as plataformas podem adaptar respostas ao contexto e ao estilo do usuário, o que pode tornar a interação mais confortável, mas também suscita perguntas sobre reconhecimento, dependência e capacidade de tolerar desacordos.
A proposta do livro é observar essas mudanças sem idealização da tecnologia nem alarmismo. Em lugar de oferecer uma resposta definitiva sobre os efeitos da inteligência artificial na vida psíquica, Queiroz convida o leitor a investigar o que busca ao recorrer a esses sistemas: informação, companhia, validação, alívio ou uma forma de evitar o risco presente nos vínculos humanos. A análise se dirige tanto a profissionais interessados no tema quanto a leitores que acompanham a crescente presença da IA no cotidiano.
Evelin Queiroz é psicanalista clínica, escritora e palestrante, natural de Salto, no interior paulista, onde mantém consultório. Antes de atuar na clínica, trabalhou na área de tecnologia e formou-se em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. A experiência profissional nos dois campos orienta a abordagem interdisciplinar apresentada na obra.
Psicanálise x Inteligência Artificial: saúde mental em tempos de algoritmos tem 144 páginas, ISBN 978-65-5616-704-6, e preço informado de R$ 52. O livro está disponível na Amazon, no Mercado Livre, no site da Matrix Editora e em livrarias.
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