Trump e Xi Jinping se encontram em Pequim para a cúpula mais estratégica do século

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Há momentos na história em que a dinâmica das relações internacionais se concentra em um único encontro entre dois líderes com poder suficiente para redesenhar o ordenamento do mundo. Nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, Donald Trump desembarca em Pequim para uma cúpula com Xi Jinping que é, por qualquer critério de análise geopolítica, o encontro mais estrategicamente carregado entre os dois países desde a visita de Richard Nixon à China em 1972. Os dois líderes, que juntos presidem as economias que respondem por aproximadamente 40% da atividade econômica mundial, negociam em Pequim sob uma tríplice pressão: a guerra comercial ainda não inteiramente resolvida, a disputa global por minerais críticos e semicondutores, e a guerra no Irã, que colocou os dois países em lados distintos de um conflito com capacidade de desestabilizar as rotas energéticas de que a China depende.

A visita de Trump a Pequim é histórica por razões que vão além do protocolo. É a primeira vez em quase uma década que um presidente americano visita a capital chinesa em viagem de Estado, e ela ocorre depois de um período em que as relações bilaterais entre as duas potências atingiram o ponto de maior tensão desde a normalização diplomática de 1979. A guerra tarifária iniciada pelo primeiro mandato Trump, retomada e intensificada no segundo, chegou a impor tarifas de até 145% sobre produtos chineses exportados para os Estados Unidos. A trégua negociada na cúpula de Seul, em outubro de 2025, reduziu a intensidade do confronto comercial sem resolvê-lo, e é sobre esse acordo que a reunião desta semana precisa construir o próximo passo.

A pauta da cúpula de Pequim é um mapa das principais tensões estruturais entre as duas potências no século XXI. O primeiro tema é tarifário: Trump e Xi precisam decidir se prorrogam e em que termos a trégua comercial de outubro, que expira nos próximos meses, e se avanços pontuais são possíveis em setores como o da soja americana, dos aviões da Boeing e dos produtos agrícolas, categorias sobre as quais a China tem histórico de usar as compras como instrumento de diplomacia econômica. O segundo tema é tecnológico: a disputa por semicondutores, inteligência artificial e controle de dados é a guerra fria do século XXI, e nenhum dos dois lados demonstra disposição para ceder soberania sobre os ativos que considera estrategicamente insubstituíveis.

O terceiro tema, e o mais urgente diplomaticamente, é o Irã. Trump chegou a ameaçar impor tarifas extras de 50% sobre produtos chineses caso Pequim ofereça apoio militar ao Irã, sinalização que a China leu como a tentativa americana de usar o confronto geopolítico no Oriente Médio como alavanca para extrair concessões comerciais em Pequim. Para a China, o Irã é um parceiro estratégico, fornecedor de petróleo e objeto de um acordo de cooperação de 25 anos, firmado em 2021, que inclui investimentos chineses em infraestrutura iraniana em troca de fornecimento de energia a preços preferenciais. Qualquer pressão americana para que a China abandone ou reduza seu relacionamento com o Irã esbarra nessa arquitetura de interesse mútuo que Xi não pode desmantelar sem custo político e econômico doméstico considerável.

O quarto tema da cúpula é Taiwan, a ilha que a China considera parte inalienável de seu território e que os Estados Unidos protegem por meio da Lei de Relações com Taiwan de 1979, sem reconhecê-la formalmente como Estado independente. Trump fez declarações recentes que levantaram dúvidas sobre a firmeza do compromisso americano com a segurança de Taiwan, e Xi lerá essas declarações como um possível espaço de manobra ou como um teste deliberado de suas intenções. A questão de Taiwan não será resolvida em Pequim nesta semana, mas ela estará presente em cada pausa do protocolo, em cada gestor de linguagem corporal trocado entre os dois líderes, e em cada formulação escolhida com cuidado cirúrgico para o comunicado final conjunto.

A expectativa dos analistas, expressa com sobriedade pelas agências internacionais que acompanham as negociações, é de que Trump retorne a Washington na sexta-feira com resultados modestos mas simbolicamente importantes: a extensão da trégua tarifária, a confirmação de compras chinesas de aviões da Boeing e de produtos agrícolas americanos, e uma declaração conjunta sobre a necessidade de estabilidade no Estreito de Ormuz que permita a Trump apresentar Xi como colaborador na sua estratégia de pressão sobre o Irã. É uma agenda pragmática para um encontro que, por sua escala histórica, mereceria ambições mais transformadoras. Mas a política internacional raramente entrega à história os resultados à altura das expectativas que o cerimonial de Estado provoca.

Para a cobertura mais aprofundada da cúpula Trump-Xi e de seus desdobramentos sobre a geopolítica, o comércio e a segurança mundiais, acompanhe o SP Notícias.

 

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