Montagem de Caetano Vilela, com regência de Roberto Minczuk, teve sete récitas de 18 a 26 de setembro, em dois elencos, e ganhou elogios da crítica pelo equilíbrio entre canto, cena e orquestra
O Theatro Municipal de São Paulo encerrou em 26 de setembro de 2026 a temporada de “Don Carlo”, de Giuseppe Verdi, ópera que não subia ao palco da casa desde 2004. A nova produção integrou as comemorações dos 115 anos do teatro e teve direção cênica e iluminação de Caetano Vilela, além de regência de Roberto Minczuk à frente da Orquestra Sinfônica Municipal e do Coro Lírico Municipal. Foram sete récitas, nos dias 18, 19, 20, 22, 23, 25 e 26 de setembro, com ingressos de R$ 47 a R$ 290.
“Don Carlo” é, segundo o Estadão, “um cometa operístico” na vida paulistana. Esta foi apenas a quarta montagem do título na cidade, depois das de 1892, no Teatro São José, de 1926, no Municipal, e de 2004. A escassez tem causas práticas. A obra dura cerca de 270 minutos, com intervalos, e exige seis protagonistas de grande fôlego vocal.
A montagem adotou a chamada versão de Módena, em cinco atos e em italiano. Para o crítico João Luiz Sampaio, é a mais interessante entre as versões italianas, pois devolve à narrativa o primeiro ato, o do encontro entre Carlo e Elisabetta na floresta de Fontainebleau. A obra estreou em Paris, em 1867, e baseia-se na peça de Friedrich Schiller.
Vilela optou por não transpor a ação para outra época. “Resolvi não contextualizar a ação em outro período. Afinal, a Inquisição pertence a uma fase histórica muito definida”, afirmou ao Estadão. O resultado combina cenários abstratos, pintados à mão e de toques expressionistas, com figurinos de época e uso expressivo da luz. Os cenários são de Duda Arruk e os figurinos, de Fabio Namatame.
A Folha de S.Paulo destacou que, “com poucos elementos cênicos e uso soberbo da iluminação”, o diretor tensionou o contraste entre os ambientes dos cinco atos. São eles a floresta francesa, o túmulo de Carlos V em San Yuste, a praça madrilena do auto de fé, o gabinete do rei e a prisão. Para Sampaio, a cena do auto de fé, com o palco praticamente vazio, ilustra a recusa do exagero que sempre ameaça as óperas históricas.
Nos dias 18, 20, 23 e 26, o primeiro elenco reuniu Atalla Ayan (Don Carlo), Ailyn Pérez (Elisabetta), Luiz-Ottavio Faria (Filippo II), Ana Lucia Benedetti (Eboli), Paulo Szot (Rodrigo, marquês de Posa) e Soloman Howard (Grande Inquisidor). Pérez fez sua estreia em ópera no Brasil. Nos demais dias, os papéis principais couberam a Matheus Pompeu, Ludmilla Bauerfeldt e Savio Sperandio, ao lado de Juliana Taino, Michel de Souza e Valeriano Lanchas.
A Folha chamou a escolha do elenco de “o maior destaque da vez”. Elogiou o Don Carlo “sonoro e seguro” de Ayan, a Elisabetta de “emissão clara, emoção precisa e fraseado minuciosamente trabalhado” e a ária “Ella giammai m’amo”, de Faria, que “segue ressoando na memória”. O jornal apontou o dueto entre Rodrigo e Carlo, na prisão, como talvez o ponto culminante do espetáculo.
Para Sampaio, o Posa de Szot teve “enorme intensidade, e jamais apenas força”, e a ária “Tu che le vanità”, de Pérez, foi “dilacerante”. Ele considerou o dueto final, com Ayan, um dos momentos mais tocantes dos anos recentes da ópera brasileira. O crítico observou ainda que a cena entre Faria e Howard, o rei e o Inquisidor, é terrível pela banalidade com que se reconhece a submissão do trono ao altar.
A regência de Minczuk recebeu a avaliação mais notável. Sampaio lembra que uma crítica recorrente ao maestro era a falta de diálogo entre fosso e palco, e afirma que o oposto se ouviu em “Tristão e Isolda” e agora em “Don Carlo”. Descreve um claro sentido teatral, com calma para a música respirar e passagens quase camerísticas, como no dueto final. O maestro, por sua vez, descreveu a ópera como “um Verdi diferente e inovador”, com grande escrita para o coro e passagens sinfônicas como um quarteto de trompas e um solo de violoncelo. O Coro Lírico foi apontado como “tão bem interpretado” na grande cena coral. A preparação do coro foi de Hernán Sánchez Arteaga.
O elenco alternativo, segundo a crítica, trouxe leituras distintas. Taino exibiu “deslumbrante forma vocal” como Eboli, e Sperandio entregou-se mais à dúvida no monólogo do rei. Pompeu privilegiou o heroico, mas, nos momentos de fragilidade, teve limitações cênicas. Sampaio também registrou o corte de passagens da tradição, como parte da canção do véu e repetições de duetos e do coro, e lembrou que elas têm função dramática.
A produção veio logo após “Tristão e Isolda”, de Wagner, apresentada em agosto. Para Minczuk, fazer duas obras longas em sequência desenvolve “a musculatura e a concentração” dos corpos estáveis. Ele afirmou que o público ficou no teatro durante os intervalos e atribuiu isso ao “efeito Netflix”, o hábito de maratonar séries. A leitura que a crítica fez do conjunto foi unânime em um ponto: a montagem devolveu a “Don Carlo” a complexidade de uma obra em que, nas palavras de Sampaio, “não há saídas fáceis”.