Exportações do setor somaram US$ 133,6 bilhões até setembro de 2026; especialistas apontam que barreiras comerciais, exigências regulatórias e diversificação de mercados estarão no centro do planejamento
O agronegócio brasileiro entra em 2027 diante de desafios que vão além da capacidade de produção: tarifas impostas por parceiros comerciais, concentração das vendas em poucos mercados e mudanças na demanda internacional podem afetar contratos, custos e acesso a compradores. Estados Unidos, China e Argentina estão entre os países que merecem atenção das empresas, em um cenário marcado por alterações nas regras de comércio e por diferentes condições econômicas e políticas.
As exportações do agronegócio alcançaram US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apresentados no levantamento. A China foi o principal destino, com US$ 44,06 bilhões, seguida pela União Europeia, com US$ 20,2 bilhões, e pelos Estados Unidos, com US$ 7,98 bilhões. Soja, carnes, produtos florestais, café e produtos do complexo sucroalcooleiro estiveram entre os principais segmentos exportadores.
A concentração das vendas no mercado chinês oferece escala, mas também expõe cadeias produtivas às mudanças na demanda, nas exigências sanitárias e nas condições de negociação. Já as relações com os Estados Unidos envolvem barreiras tarifárias e tratamentos distintos conforme o produto. Na América do Sul, a retração das exportações brasileiras para a Argentina reforça a importância de acompanhar tanto a conjuntura econômica do país vizinho quanto as regras do Mercosul.
Para Anna Dolores Sá Malta, advogada especialista em comércio exterior e presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior, a preparação das empresas precisa considerar fatores que não estão sob controle direto dos exportadores. “Uma mudança tarifária nos Estados Unidos, uma alteração na demanda chinesa ou novas exigências de importação podem afetar diretamente os custos e a competitividade dos nossos produtos. O planejamento precisa considerar esses riscos”, afirma.
Os dados do comércio exterior brasileiro mostram desempenhos diferentes entre os mercados. De janeiro a setembro de 2026, as exportações totais do país cresceram 10,4%, para US$ 284,65 bilhões, conforme informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No período, as vendas à China aumentaram 12%, enquanto os embarques aos Estados Unidos caíram 6,5%. Para a Argentina, a redução foi de 18,5%. Esses percentuais abrangem todos os setores da economia e não devem ser interpretados como resultados exclusivos do agronegócio.
Tarifas norte-americanas e dependência do mercado chinês
A relação comercial com os Estados Unidos vem sendo afetada por medidas tarifárias adotadas pelo governo de Donald Trump a partir de 2025. Conforme levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) citado no texto, as exportações brasileiras ao mercado norte-americano somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, queda de 9,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na agropecuária, a retração foi de 26,7%, enquanto os embarques do setor para outros destinos cresceram 9,5%.
A diferença aponta para a importância de acompanhar as condições de acesso ao mercado dos Estados Unidos, sem atribuir toda variação comercial a uma única causa. Tarifas podem influenciar a competitividade, mas preços internacionais, demanda, disponibilidade de produtos e custos logísticos também afetam o desempenho das exportações.
As medidas tarifárias também tornam mais relevante a negociação dos contratos internacionais. Cláusulas sobre quem assume o custo de eventuais sobretaxas, responsabilidades de cada parte, prazos de entrega, condições de pagamento e mecanismos para resolver disputas podem influenciar a rentabilidade de uma operação.
“As medidas adotadas pelos Estados Unidos nos últimos anos mostram como decisões de política comercial podem modificar rapidamente as condições de uma operação”, diz Malta. Para a especialista, empresas precisam prever contratualmente como serão distribuídos os custos caso haja mudanças que afetem os negócios.
Na China, o principal desafio é administrar a forte concentração das exportações. O país respondeu por cerca de um terço do valor exportado pelo agronegócio brasileiro entre janeiro e setembro, segundo os dados do Mapa. A escala desse mercado favorece grandes volumes de venda, mas mudanças nas compras, nas exigências sanitárias ou nas relações comerciais entre Pequim e Washington podem repercutir em cadeias como soja e carnes.
“A China é um parceiro fundamental para o agronegócio brasileiro, mas a concentração das vendas em um único destino também representa uma exposição comercial”, afirma Malta. A ampliação de mercados, nesse contexto, pode reduzir a dependência de poucos compradores, embora exija que cada empresa avalie custos de logística, certificações, habilitações sanitárias e viabilidade econômica.
Argentina, acordos e segurança jurídica
A Argentina também permanece no radar das empresas brasileiras. Os dois países mantêm relações econômicas e compromissos no Mercosul, apesar das diferenças políticas entre seus governos. A queda de 18,5% nas exportações totais brasileiras para o mercado argentino até setembro indica a necessidade de acompanhar a demanda local e as condições de comércio regional, mas, isoladamente, não permite atribuir a retração a divergências políticas.
“As diferenças políticas entre os governos não eliminam os compromissos comerciais existentes. O Mercosul possui regras e mecanismos próprios, que precisam ser observados pelos países integrantes”, afirma Malta. Para as empresas, acrescenta, é importante acompanhar mudanças regulatórias, condições de pagamento e a capacidade de importação do mercado argentino.
A agenda de 2027 inclui ainda o aproveitamento de acordos comerciais e a busca por novos destinos. O Mapa informa que o Brasil alcançou 700 novas aberturas de mercado para produtos agropecuários em 99 destinos desde 2023. Esse número se refere a autorizações para produtos específicos e não significa, necessariamente, que as vendas tenham se concretizado.
Entre as iniciativas mencionadas está o acordo Mercosul–EFTA, que estabelece condições preferenciais de comércio com países europeus. Conforme as informações apresentadas, a aplicação dos benefícios começou em outubro para a Islândia e está prevista para novembro na Noruega. A utilização das preferências depende, entre outros fatores, de o produto estar contemplado e de o exportador cumprir regras de origem, exigências sanitárias e procedimentos documentais.
“Os acordos comerciais podem abrir oportunidades, mas o benefício não é automático”, observa a advogada. Sem a verificação dos requisitos, uma empresa pode deixar de utilizar uma tarifa preferencial ou enfrentar dificuldades na operação.
O quadro tarifário norte-americano também pode variar conforme o produto. O texto-base informa que, em julho de 2026, os Estados Unidos estabeleceram sobretaxas que, combinadas, chegaram a 37,5% para determinados itens brasileiros, mas também registraram exceções para carnes e cafés e uma cota temporária adicional de 300 mil toneladas para certas importações de carne bovina entre setembro e novembro. A diferença de tratamento reforça a necessidade de verificar a classificação tarifária e as regras específicas aplicáveis a cada mercadoria.
A diversificação de destinos, a revisão de contratos e o acompanhamento das exigências comerciais integram, assim, o planejamento das empresas para 2027. Ao encerrar 2025 com aproximadamente US$ 169,1 bilhões em exportações, segundo os dados apresentados no texto-base, o agronegócio brasileiro demonstrou a dimensão de sua presença internacional. Transformar esse alcance em relações comerciais sustentáveis dependerá também da capacidade de administrar riscos e responder a mudanças nas políticas dos mercados compradores.
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