Pesquisa Datafolha divulgada em 2025 e cujas tendências seguem se confirmando em 2026 revelou uma inversão significativa nas principais preocupações dos brasileiros, com a violência e a segurança pública ultrapassando a economia e ocupando, ao lado da saúde, o topo da lista de problemas nacionais percebidos pela população. Segundo o levantamento, 16% dos brasileiros apontaram a violência como o maior problema do país, ficando atrás apenas dos 20% que indicaram a saúde nessa posição, enquanto a economia, que liderava pesquisas anteriores, recuou para terceiro lugar com 11% das menções. Esse deslocamento no mapa de preocupações da sociedade tem implicações diretas para o cenário eleitoral de 2026, forçando partidos e candidatos a apresentar propostas concretas e convincentes na área de segurança.
A ascensão da segurança pública como prioridade máxima da agenda popular não é circunstancial. Ela reflete o acúmulo de anos de altas taxas de homicídio, expansão das organizações criminosas para além das grandes metrópoles, crescimento dos crimes cibernéticos e a percepção de impunidade que corrói a confiança da população nas instituições de segurança e na Justiça. Pesquisas periódicas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registra anualmente dezenas de milhares de homicídios, com concentração desproporcional em estados do Norte e Nordeste, e que grupos vulneráveis como jovens negros e periféricos são as principais vítimas desse ciclo de violência estrutural.
O governo federal, ciente desse diagnóstico, anunciou ao longo de 2025 e 2026 uma série de medidas voltadas ao fortalecimento das polícias, ao enfrentamento ao crime organizado e ao aprimoramento dos sistemas de inteligência integrada entre as forças de segurança. O Ministério da Justiça e Segurança Pública liderou iniciativas como o programa Maio Amarelo, focado na segurança viária, mas também trabalhou em frentes mais estruturais, como a modernização do sistema penitenciário, a integração de dados entre estados e a repressão ao tráfico internacional de drogas. Ainda assim, a percepção pública continua sendo de que os esforços são insuficientes diante da magnitude do problema.
Para os candidatos que disputarão a eleição presidencial em outubro de 2026, a segurança pública representa simultaneamente uma oportunidade e um risco. Oportunidade porque o eleitorado está claramente sensível ao tema e valoriza propostas que demonstrem comando, seriedade e capacidade de enfrentamento real ao crime. Risco porque promessas genéricas ou demagógicas tendem a ser rapidamente desmascaradas diante de uma população que vive cotidianamente os impactos da violência. Candidatos que não apresentarem diagnósticos precisos, metas mensuráveis e propostas compatíveis com a estrutura constitucional brasileira de divisão de responsabilidades entre União, estados e municípios correm o risco de perder credibilidade justamente no tema mais sensível do eleitorado.
O debate legislativo é reflexo direto dessa pressão social. A CCJ da Câmara pauta, exatamente neste 19 de maio, a admissibilidade da PEC que reduz a maioridade penal, medida amplamente percebida como uma resposta simbólica à demanda por maior rigor punitivo. Ao mesmo tempo, o Senado Federal acumula propostas que aumentam penas para crimes específicos e ampliam poderes de investigação das autoridades policiais, em uma dinâmica que mistura pragmatismo eleitoral com genuína preocupação legislativa. A questão é saber em que medida essas iniciativas, muitas vezes aprovadas sob o calor do debate público, são capazes de produzir resultados práticos sustentáveis na redução da violência.
A resposta mais responsável ao problema da segurança pública no Brasil, como indicam especialistas e comparações internacionais, combina repressão qualificada ao crime com investimento consistente em educação, oportunidades econômicas para jovens em situação de vulnerabilidade, reformas no sistema de justiça criminal e modernização das polícias. Países que conseguiram reduzir significativamente seus índices de criminalidade ao longo de décadas fizeram isso por meio de políticas de Estado, não de governo, que persistiram além dos ciclos eleitorais. Esse é o desafio central que a classe política brasileira precisará enfrentar com seriedade nas próximas eleições, sob pena de perpetuar um ciclo em que o medo da violência alimenta o debate, mas as soluções reais continuam adiadas.
SP Notícias – Intellectus ex Veritate