Uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira pela CNN Brasil, produzida em parceria com o Instituto DataSP a partir de metodologia aplicada em 27 estados brasileiros e no Distrito Federal, revela um dado que confirma, com a autoridade dos números, o que a intuição e a experiência cotidiana de quem habita este país já sinalizavam: São Paulo e Rio de Janeiro lideram, com folga, o ranking de imagem positiva entre os brasileiros, posição que reflete tanto o prestígio histórico e cultural das duas metrópoles quanto a percepção de que elas concentram oportunidades, serviços e experiências que o restante do território nacional ainda não conseguiu democratizar de forma plena.
O ranking de imagem é uma ferramenta metodológica relativamente nova no arsenal da pesquisa social brasileira, mas amplamente utilizada em estudos de sociologia urbana e de marketing territorial em países europeus e norte-americanos. Ele mede, em linhas gerais, a associação espontânea que os cidadãos fazem entre determinadas cidades ou regiões e atributos positivos ou negativos como qualidade de vida, segurança, oportunidade de emprego, cultura, gastronomia, beleza natural e orgulho de pertencimento. No contexto brasileiro, o ranking tem o adicional de medir não apenas a percepção dos moradores das próprias cidades, mas a imagem que essas cidades projetam sobre o restante do país, o que o torna um instrumento de compreensão do imaginário coletivo nacional com implicações políticas, econômicas e culturais que vão muito além de qualquer classificação turística.
São Paulo, com sua condição de maior polo econômico, cultural e universitário do hemisfério sul, ocupa a primeira posição do ranking com a força de quem personifica, no imaginário brasileiro, a associação entre esforço e ascensão. A cidade que mais recebeu migrantes internos e estrangeiros ao longo do século XX, que tem a maior bolsa de valores da América Latina, o maior complexo de teatros, museus e salas de concerto do país, e que produz mais da metade do PIB do estado que, por sua vez, responde por mais de 31% do PIB nacional, é percebida pelos brasileiros de outras regiões como a cidade que realiza, apesar de todos os seus paradoxos de desigualdade, violência e caos urbano, a promessa mais persistente do Brasil: a de que o trabalho pode produzir resultados.
O Rio de Janeiro, em segundo lugar, carrega no ranking uma imagem que é ao mesmo tempo mais afetiva e mais complexa do que a de São Paulo. A cidade que foi capital federal por mais de um século, que abrigou a corte de Dom João VI e o Segundo Reinado, que construiu no início do século XX com a reforma Pereira Passos uma urbanidade moderna à altura das capitais europeias, e que projetou para o mundo, por meio da bossa nova, do cinema novo e do carnaval, a imagem mais sedutora do Brasil, ocupa no imaginário nacional um espaço que vai além da função econômica. O Rio é a cidade em que o Brasil se reconhece como povo, como mistura, como alegria. Que seja também a cidade em que a violência estrutural, o domínio territorial das milícias e do tráfico e a crise fiscal do Estado têm resistido a todas as tentativas de solução definitiva é o drama que os próprios cariocas conhecem com intimidade e que o ranking de imagem, baseado em associações afetivas e não em indicadores objetivos de qualidade de vida, naturalmente não captura com a mesma precisão.
A pesquisa abre uma questão que merece reflexão: o que fazer com uma assimetria tão pronunciada de imagem entre as metrópoles do Sudeste e o restante do país? Estados como o Maranhão, o Piauí e o Amapá, que têm culturas, paisagens e histórias de uma riqueza humana que nenhum ranking de imagem nacional consegue capturar adequadamente, pagam o preço de uma invisibilidade simbólica que tem consequências reais: ela desestimula o investimento, dificulta a atração de talentos e perpetua a percepção de que o Brasil produtivo e atraente é o do litoral sul-sudeste. O desenvolvimento regional equilibrado é um objetivo constitucional do artigo 3.º da Carta de 1988. A distância entre esse objetivo e o que o ranking de imagem revela é a medida do quanto ainda falta percorrer nessa jornada.
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