A diretoria do São Paulo Futebol Clube decidiu, na tarde desta quinta-feira, pela demissão do técnico Roger Machado, após a eliminação do clube na fase de grupos de uma competição continental que o Tricolor Paulista havia anunciado como prioridade da temporada. A decisão foi comunicada ao treinador ao longo da manhã em reunião com o diretor executivo de futebol e encerrou uma passagem de pouco mais de oito meses à frente do clube, período marcado por resultados irregulares no Campeonato Brasileiro, desempenho aquém das expectativas na Copa do Brasil e agora pelo embaraço da eliminação precoce no torneio continental. O São Paulo, que tem em seu museu 36 títulos oficiais e três títulos mundiais interclubes, vive um dos períodos de maior instabilidade técnica de sua história recente, com o décimo técnico demitido nos últimos quatro anos.
Roger Machado havia sido contratado em setembro de 2025 com o perfil do técnico construtor, aquele que valoriza o processo de desenvolvimento de jogadores, aposta na base do clube e defende um estilo de jogo baseado na saída de bola pelo chão e na ocupação organizada dos espaços. Em um clube com a tradição de futebol combinado do São Paulo das décadas de 1990 e 2000, o perfil parecia coerente com a identidade que a diretoria afirmava querer resgatar. A realidade do campo, no entanto, demonstrou que a distância entre o estilo desejado e a qualidade do elenco disponível era maior do que o diagnóstico inicial da comissão técnica havia estimado: sem um centroavante de área com consistência, sem um meia criativo de nível internacional e com uma defesa vulnerável a transições rápidas, o São Paulo de Roger Machado foi competitivo em jogos de menor intensidade e frágil nos momentos decisivos contra adversários de maior qualidade individual.
A crise do São Paulo FC neste início de 2026 é, no entanto, muito mais abrangente do que o resultado de uma temporada ou do trabalho de um treinador. O clube enfrenta um problema estrutural de modelo de gestão que a sociologia do esporte brasileiro discute com crescente nitidez: a dificuldade em compatibilizar a profissionalização plena do futebol, com suas demandas de investimento em infraestrutura, tecnologia e contratações de alto nível, com um modelo associativo de governança em que a diretoria é eleita pela massa de sócios e presta contas a um Conselho Deliberativo cujas prioridades nem sempre se alinham com as da administração profissional que o futebol moderno exige. O São Paulo, que resistiu mais tempo do que os rivais Corinthians, Palmeiras e Santos à transformação em Sociedade Anônima do Futebol, enfrenta agora o dilema de uma segunda geração de sócios profissionalizados que cobra resultados mas não financia com investimento próprio os recursos necessários para garanti-los.
A decisão de demitir Roger Machado coloca o clube diante da mesma pergunta que suas últimas dez contratações de treinador colocaram: qual é o projeto de futebol do São Paulo FC? A resposta a essa pergunta não pode ser simplesmente “ganhar títulos”, porque ganhar títulos é a ambição de todos os 150 clubes profissionais do país. A resposta precisa especificar um estilo de jogo reconhecível, uma forma de desenvolver jogadores que seja sustentável e diferenciada, e uma estratégia de mercado que construa o elenco coerente com o estilo definido. Sem essa definição prévia, cada treinador novo é uma reinvenção do projeto que o clube precisará abandonar ao demitir o próximo.
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