Os números da Petrobras para o primeiro trimestre de 2026, divulgados na noite de segunda-feira, 11 de maio, revelam uma empresa que ainda produz lucros de magnitude impressionante, mas que navega em um ambiente de crescente complexidade financeira e geopolítica que começa a deixar marcas mensuráveis em seus resultados. O lucro líquido de R$ 32,66 bilhões no período de janeiro a março de 2026 representa uma queda de 7,2% em relação ao primeiro trimestre de 2025, quando a petroleira havia registrado R$ 35,2 bilhões, mas um aumento de 110% em relação ao quarto trimestre de 2025, quando o lucro havia desabado para R$ 15,6 bilhões em razão de despesas extraordinárias com provisões e baixas contábeis. A empresa anunciou, simultaneamente, a distribuição de R$ 9,03 bilhões em dividendos extraordinários aos acionistas, confirmando sua política de remuneração generosa apesar da queda de resultado.
A queda de 7,2% no lucro anual é explicada pela confluência de três fatores principais que os analistas já antecipavam, mas cuja combinação simultânea provou ser mais impactante do que as projeções individuais sugeriam. O primeiro fator é a variação do preço do petróleo: o barril do tipo Brent que, no primeiro trimestre de 2025, era cotado a uma média de US$ 75,66, subiu para US$ 80,61 no primeiro trimestre de 2026, o que deveria ter contribuído positivamente para a receita. A alta do petróleo foi, no entanto, parcialmente neutralizada pelo segundo fator: a apreciação do real frente ao dólar, que reduz o valor em reais das receitas da companhia denominadas em moeda americana, dado que o petróleo é precificado globalmente em dólares e que a Petrobras exporta boa parte de sua produção.
O terceiro e mais controverso fator é a política de subvenção do óleo diesel. A Petrobras mantém, sob pressão do governo federal, preços do diesel no mercado interno abaixo da paridade de importação, absorvendo uma diferença que a empresa contabiliza como custo operacional e que, segundo seus próprios demonstrativos financeiros, consumiu recursos da ordem de bilhões de reais no primeiro trimestre. A política de proteção do preço do diesel tem raízes políticas compreensíveis: os transportadores rodoviários, categoria que paralisou o Brasil em 2018 e em 2021 em greves que chacoalharam os governos da época, são um ator de poder que qualquer governo prefere manter relativamente satisfeito. Mas o custo dessa preferência é contabilizado trimestralmente nos resultados da empresa e transferido, em última análise, para o acionista minoritário e para o valor da empresa no mercado de capitais.
O EBITDA ajustado da companhia, o indicador que mede a geração de caixa operacional antes de impostos, depreciação e amortização, ficou em R$ 59,6 bilhões, recuo de 2,4% em relação ao mesmo período de 2025. O número confirma que a Petrobras permanece uma das empresas de maior geração de caixa do hemisfério sul, com musculatura financeira para sustentar seu plano de investimentos de US$ 111 bilhões para o período 2026-2030, o mais ambicioso da história da companhia, concentrado no desenvolvimento dos campos do pré-sal da Bacia de Santos e na expansão da capacidade de processamento.
O contexto geopolítico do Estreito de Ormuz adiciona uma camada de complexidade ao panorama da empresa para os próximos trimestres. Com o Brent oscilando ao redor de US$ 98 por barril em razão da tensão militar no Estreito, a Petrobras se beneficia como exportadora de petróleo de uma alta que eleva suas receitas, mas sofre como processadora de combustíveis de uma pressão sobre os custos de importação de derivados que o Brasil ainda precisa adquirir externamente. O saldo líquido dependerá da duração e da intensidade da crise em Ormuz, variável que nenhum modelo financeiro consegue precificar com confiança enquanto as tratativas diplomáticas entre EUA e Irã permanecem em estado de incerteza.
A Petrobras de 2026 é, em síntese, uma empresa poderosa e lucrativa que opera na interseção de três forças simultâneas de pressão: a geopolítica do petróleo que eleva seus preços, mas ameaça suas rotas; o governo acionista majoritário que impõe políticas de preço que comprimem suas margens; e o mercado de capitais que exige a maximização dos dividendos. Navegar nessa interseção com resultados acima de R$ 32 bilhões por trimestre é uma façanha que poucos analistas deixariam de reconhecer, mesmo que com ressalvas.
O SP Notícias interpreta a economia e o mercado com profundidade analítica e elegância, para que o leitor compreenda os números além dos números. Leia o SP Notícias.
**
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
SP Notícias — Intellectus ex veritate