Papa Leão XIV anuncia para o dia 25 de maio a publicação de sua primeira encíclica “Magnifica Humanitas” sobre inteligência artificial e direitos dos trabalhadores

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Há um paradoxo de escala magnífica no fato de que o homem que comanda a mais antiga instituição política e religiosa do Ocidente, com dois mil anos de história contínua, escolha como tema de seu primeiro documento magisterial soberano uma tecnologia que tem menos de uma década de maturidade pública e que já desafia os fundamentos da organização do trabalho humano em escala planetária. O Vaticano anunciou nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, que o Papa Leão XIV publicará em 25 de maio sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas“, documento que abordará centralmente a ascensão da inteligência artificial e os desafios que ela impõe aos direitos dos trabalhadores em todo o mundo. A escolha do tema não é apenas pastoralmente significativa: ela é politicamente carregada, pois coloca a Santa Sé em potencial confronto com a agenda do presidente Donald Trump, que tem na desregulamentação da inteligência artificial e na resistência às restrições trabalhistas dois dos eixos mais definidores de sua política econômica doméstica e internacional.

Leão XIV, nascido Robert Francis Prevost, eleito pontífice em maio de 2025 após o longo pontificado de Francisco, é o primeiro papa americano da história, oriundo de Chicago e formado pela tradição agostiniana. Sua eleição foi saudada como um sinal de abertura da Igreja a novas formas de presença no mundo contemporâneo, mas também gerou, desde os primeiros meses, tensões com setores do catolicismo americano mais alinhados ao conservadorismo político de Trump. A publicação de uma encíclica que trata a inteligência artificial como um desafio estrutural aos direitos humanos e trabalhistas, e que a Igreja se comprometer com a proteção dessas dimensões da dignidade humana diante da automação, é um gesto que coloca Leão XIV em linha com a tradição da Doutrina Social da Igreja, inaugurada com a “Rerum Novarum” de Leão XIII em 1891, que foi também uma resposta da Igreja aos desafios que a revolução industrial impunha à organização do trabalho, à remuneração justa e à dignidade do operário.

A “Magnifica humanitas” chega em um momento em que a inteligência artificial já não é mais um horizonte de futuro distante, mas uma realidade operacional presente em bilhões de interações cotidianas. Modelos de linguagem avançados automatizam tarefas que empregavam redatores, analistas, tradutores, advogados e contadores. Sistemas de visão computacional assumem funções antes executadas por operadores humanos em linhas de produção, em diagnósticos médicos e em sistemas de vigilância. A automação impulsionada pela inteligência artificial não é, em sua natureza econômica, fundamentalmente diferente das ondas de automação que o tear mecânico, a máquina a vapor e o robô industrial produziram ao longo dos últimos dois séculos. O que a distingue é a velocidade, a escala e a pervasividade: enquanto as revoluções industriais anteriores se desenvolveram em décadas e afetaram setores específicos da economia de cada vez, a revolução da inteligência artificial se desenvolve em anos e afeta simultaneamente todos os setores, incluindo aqueles que as ondas anteriores haviam poupado por exigirem capacidade cognitiva que as máquinas não dominavam.

No Brasil, o documento papal chegará com relevância imediata a um debate que o país ainda não travou com a seriedade que a urgência demandaria. A automação da produção industrial, do setor de serviços e da administração pública por sistemas de inteligência artificial já produziu, segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a supressão líquida de aproximadamente 1,2 milhão de postos de trabalho formais entre 2023 e 2025, número que o crescimento do emprego em novos setores compensou apenas parcialmente. A questão que a “Magnifica humanitas” coloca não é a de proibir a inteligência artificial, que seria uma resposta anacrônica e impraticável, mas a de definir os princípios éticos e jurídicos que devem governar sua adoção em escala: quem é responsável pelos danos causados pela automação ao trabalhador deslocado? Qual deve ser a participação dos ganhos de produtividade gerados pela IA nos salários e nos benefícios dos trabalhadores que permanecem empregados? E como garantir que a concentração de poder tecnológico nas mãos de um punhado de empresas privadas não reproduza, em escala digital, as assimetrias de poder que a industrialização do século XIX criou e que levou um século de lutas trabalhistas para começar a corrigir?

Estas perguntas, que a encíclica de Leão XIV colocará com toda a autoridade moral e histórica do Magistério da Igreja Católica, são perguntas que o Brasil, com seu mercado de trabalho ainda marcado por profunda informalidade e vulnerabilidade, não pode continuar adiando. A voz do papa, no dia 25 de maio, alcançará não apenas os 1,3 bilhão de católicos do mundo, mas todos os que, independentemente da fé, reconhecem que as questões de dignidade humana no trabalho são questões de civilização que transcendem qualquer credo.

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