Os gigantes da montanha voltam a assombrar São Paulo: Pirandello e a pergunta que não envelhece

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Aqui está a matéria completa, redigida nos moldes editoriais do SP Notícias:


Há espetáculos que chegam ao palco e há espetáculos que chegam ao tempo. A nova montagem de Os gigantes da montanha, de Luigi Pirandello, que estreia no dia 5 de junho no espaço Zona Franca, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, pertence inequivocamente à segunda categoria. Sob a direção de Kiko Marques, encenador que retorna a este texto pela quarta vez, a terceira como diretor, o espetáculo não se limita a encenar uma obra. Ele a habita, a desafia e, sobretudo, a interroga com a urgência de quem sabe que certas perguntas não admitem resposta definitiva, apenas reincidência.

A escolha do texto não é casual nem leviana. Os gigantes da montanha representa o testamento intelectual e artístico de Pirandello, dramaturgo siciliano que recebeu o Nobel de Literatura em 1934 e que passou os últimos anos de sua vida a construir o que ele mesmo chamava de um “mito cênico”, forma híbrida entre o drama, o poema e a alegoria filosófica. A obra foi escrita e reescrita ao longo de toda a década de 1930, mas permaneceu inconclusa quando a morte surpreendeu o autor em dezembro de 1936, às vésperas do cataclismo que se tornaria a Segunda Guerra Mundial. O desfecho da peça chegou à posteridade apenas por meio de um relato oral do filho do dramaturgo, a quem Pirandello teria confidenciado, em seu leito de morte, que o finale estava pronto na mente, mas jamais foi transcrito ao papel. Essa lacuna, longe de empobrecer a obra, constitui sua ferida mais fértil.

A trama acompanha uma trupe de teatro decadente, liderada pela obsessiva Condessa Ilse, que chega a uma misteriosa vila habitada por figuras marginais da sociedade — seres que escolheram deliberadamente o exílio do mundo prático para viver na substância dos sonhos e das visões. No centro dessa comunidade onírica, a figura de Cotrone: mago, filósofo e anfitrião de um universo paralelo onde o invisível tem mais peso ontológico do que a realidade tangível. A questão que a peça coloca, com desconcertante modernidade, é a mesma que atravessa toda a estética pirandelliana: pode a arte sobreviver num mundo que já não a quer? E, mais grave ainda. deve ela sobreviver a qualquer custo, mesmo que isso implique sua própria destruição?

Essa inquietação adquire dimensões particulares quando se lembra que Pirandello viveu sob o fascismo de Mussolini, chegando a inscrever-se no Partido Nacional Fascista em 1924, decisão que o acompanhou como sombra até a morte e que os estudiosos ainda debatem em termos de adesão ideológica ou estratégia de sobrevivência. Os gigantes da montanha, nessa chave de leitura, pode ser lido como uma retirada, a fuga de um artista que, ao perceber a brutalidade crescente das forças históricas, optou por refugiar-se no território do sonho. A vila dos “azarados”, como são chamados os habitantes do espaço mágico da peça, seria então menos um cenário fantástico e mais uma metáfora do artista que, diante da barbárie iminente, escolhe a poesia como forma de resistência, ou de rendição.

A montagem paulistana não se furta a essa densidade. Kiko Marques, diretor da Velha Companhia de Teatro, conduziu um Laboratório de Montagem entre setembro e dezembro de 2025, no espaço Sala de Estar, na Vila Mariana, reunindo treze atores-criadores num processo colaborativo que privilegiou a improvisação, os debates dramatúrgicos e a experimentação cênica. O resultado não é a encenação de uma peça, é a encenação de um processo de pensar uma peça. Elementos contemporâneos convivem com vestígios de outras épocas, numa fábula propositalmente sem localização precisa, que pode acontecer “naquele casarão aos pés da montanha, no tempo em que foi escrita, ou no espaço íntimo de cada espectador”, nas palavras do próprio encenador.

A aposta formal mais ousada da produção reside na dimensão imersiva: a sessão comporta apenas trinta espectadores, que não assistem ao espetáculo de uma plateia convencional, mas o habitam. Atores e público compartilham o mesmo espaço, o mesmo ar, a mesma instabilidade. Trata-se de uma opção estética que dialoga com as tendências mais vigorosas do teatro contemporâneo internacional, o chamado teatro de experiência ou teatro site-specific —, que têm ganhado espaço crescente em São Paulo, especialmente no circuito independente que orbita em torno de espaços como o próprio Zona Franca. A proximidade entre performer e espectador não é um artifício de entretenimento; é uma escolha filosófica. Quando não há distância confortável, o espectador é convocado a abandonar a passividade contemplativa e assumir a co-responsabilidade pela experiência. A incompletude de Pirandello migra, então, da página para a sala, e do dramaturgo morto para o público vivo.

A ficha técnica reúne nomes que testemunham o rigor do processo: o elenco de treze atores-criadores inclui Ari Pinotti, Bruno Rods, Eduardo Venosa, Isadora Maffei, Ingrid Ruiz, Ioli Ferro, Rúbia Abati e outros, com figurinos assinados por Davi Parisotti e concepção de som e luz a cargo de Taiguara. A tradução utilizada é a de Beti Rabetti, pesquisadora reconhecida no campo da teoria e história teatral brasileira, cuja versão para o português preserva a tensão poética e filosófica do original italiano.

A temporada, que se estende de 5 a 28 de junho, com sessões às sextas e sábados às 20h e domingos às 18h, acontece no endereço Rua Almirante Marques de Leão, 378, Bela Vista. Os ingressos custam R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada) — valores que, considerando a densidade da proposta e a raridade da experiência com apenas trinta lugares por sessão, configuram um acesso culturalmente democrático a um produto artístico de alta elaboração.

Há uma ironia sutil e perturbadora em trazer Os gigantes da montanha para os palcos de 2026. Pirandello escreveu sua obra numa Europa à beira do abismo; nós a recebemos numa época que não esconde o peso de suas próprias montanhas — os gigantes sem rosto que continuam a ameaçar a fragilidade da arte, da poesia e do pensamento livre. O texto inacabado, por isso, nunca esteve tão acabado em seu sentido mais profundo.

 

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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
SP Notícias — Intellectus ex veritate

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