Há artistas que escolhem a música; há outros, mais raros, que por ela são escolhidos antes mesmo de proferir a primeira palavra. É este o caso do tenor paulistano Felipe Menegat, cuja vocação, segundo relato de sua própria avó, manifestou-se em cantoria muito antes que os primeiros vocábulos lhe brotassem da garganta. Neto de imigrantes italianos, Menegat parece ter herdado, com o sangue peninsular, também a inclinação lírica que atravessa gerações e continentes. E é justamente à terra de seus ancestrais, e às paragens vizinhas de Portugal, que o artista se dirige neste mês de outubro, em turnê que promete consagrar, no Velho Mundo, uma trajetória já das mais promissoras em solo brasileiro .
A partir do dia 15 de outubro, o tenor cruzará o Atlântico para uma série de recitais que percorrerão centros culturais de Lisboa e do Porto, em roteiro que combina o rigor da música clássica italiana à sensibilidade das canções românticas de repertório internacional e brasileiro, marca do espetáculo que o artista tem levado aos palcos nacionais sob o título de Romance. Ao todo, quatro apresentações compõem o itinerário europeu, entre as quais se destacam dois recitais na Catedral de Viseu, templo que neste ano celebra efeméride de particular significado histórico, cujos muros centenários servirão de moldura acústica e espiritual à voz do tenor brasileiro .
Não é a primeira vez que Menegat leva a estrangeiros a experiência de sua voz; é, contudo, a primeira ocasião em que o fará em terreno onde a própria música clássica encontrou, séculos atrás, seu berço e sua liturgia. Há, nesse retorno simbólico às origens europeias da tradição lírica, algo de justiça poética: um brasileiro, formado nos rigores da técnica vocal ocidental, devolve ao continente que a exportou uma interpretação lapidada pela sensibilidade tropical.
A biografia de Felipe Menegat é, em si, matéria de interesse musicológico. Iniciou sua formação musical aos nove anos de idade, movido por paixão precoce pela música clássica sacra, repertório que, ainda hoje, permeia sua identidade artística . Antes disso, porém, já dedilhava teclas: aos seis anos, sentava-se ao órgão, instrumento que lhe serviria de porta de entrada para a compreensão harmônica que hoje sustenta sua atuação simultânea como pianista e cantor em seus próprios recitais.
Tal formação não se deu ao acaso, tampouco isoladamente. Menegat integra o seleto grupo de discípulos da soprano premiada Leila Guimarães, vencedora de reconhecimentos na música erudita nacional, cuja mentoria contribuiu decisivamente para o refinamento técnico que hoje distingue o tenor entre seus pares. A esse capital pedagógico soma-se um episódio de rara distinção: o artista foi condecorado como Cavaleiro de uma Ordem Papal, honraria conferida após encontro com o Sumo Pontífice, fato que confere à sua carreira uma dimensão que transcende o meramente artístico, tocando também as esferas simbólica e institucional da tradição católica. Não por acaso, a mesma tradição que hoje o recebe nas naves da Catedral de Viseu.
Perguntado, em entrevista concedida nas redes sociais, sobre como definiria sua identidade musical, o próprio Menegat sintetizou-se com precisão felizarda: um “pop lírico”, fruto de bagagem e formação que dialogam entre o cânone erudito e a sensibilidade contemporânea das plateias. Essa síntese explica, em boa medida, o sucesso de seu espetáculo Romance, apresentado anteriormente ao público paulistano no palco do Teatro Unibes, onde o tenor foi descrito como uma das vozes mais impressionantes da atualidade.
O programa que levará à Europa não se distancia dessa fórmula: clássicos italianos convivem, no repertório, com canções românticas de tradição internacional e brasileira, numa curadoria que busca, antes de tudo, a emoção imediata da audiência, sem abdicar do rigor técnico que a formação clássica impõe. É esse equilíbrio, entre a exigência do cânone e a acessibilidade do sentimento, que parece explicar por que um tenor brasileiro, formado fora dos grandes centros europeus tradicionais de bel canto, consegue hoje reivindicar espaço nos palcos lusitanos.
Há, na presente turnê, uma dimensão que extrapola o calendário de shows: trata-se de um capítulo simbólico na história recente da música erudita brasileira, que insiste em provar sua vitalidade fora das fronteiras nacionais. Em tempos nos quais a produção musical brasileira no exterior costuma associar-se ao pop, ao funk ou à música popular de exportação fácil, a presença de um tenor lírico brasileiro cantando na Catedral de Viseu constitui gesto de resistência cultural e de afirmação de que a tradição clássica também encontrou, no Brasil, terreno fértil de cultivo e de excelência.
A escolha de Portugal, mais que estratégia de mercado, revela-se também retorno afetivo: é na língua e na fé lusitanas que Felipe Menegat, descendente de italianos, encontra ponto de encontro com o público que o receberá. Herança dupla, ítalo-lusa, que talvez explique a naturalidade com que sua voz parece deslizar entre os dois repertórios que a turnê promete unir.
Que a viagem de Felipe Menegat sirva, pois, de lembrete: a música erudita brasileira, longe de ser capítulo encerrado ou nicho residual, continua a produzir vozes capazes de atravessar oceanos e catedrais, e de fazer, das pedras antigas da Europa, palco renovado para o talento que nasce, cresce e se aprimora sob o céu tropical.