Mulheres Além do Cargo: Do Ego ao Burnout

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No dia 10 de outubro de 2026, será celebrado o Dia Mundial da Saúde Mental. O tema oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) neste ano é “Experiências vividas ouvidas: vozes reais, mudanças reais”

Mas como desmascarar o fantasma do burnout e realmente contribuir para mudanças reais? Como ex-executiva de tecnologia, quero compartilhar algumas experiências e mostrar apenas a ponta do iceberg. Primeiro, precisamos reconhecer que nós, mulheres, acumulamos funções, papéis e responsabilidades que, muitas vezes, nem deveriam ser exclusivamente nossos.

Em setembro de 2026, a OMS destacou a sobrecarga, a discriminação e a falta de autonomia como riscos à saúde mental no ambiente profissional. Aqui entra um ponto muito delicado, talvez nós mesmas tenhamos caminhado, sem perceber, em direção à ponta desse abismo. Buscávamos a tão sonhada independência financeira, mas essa conquista nem sempre veio acompanhada de uma divisão equilibrada das responsabilidades. Conquistamos espaço e reconhecimento, mas também passamos a enfrentar, silenciosamente, uma sobrecarga que poderia comprometer nossa saúde mental e, consequentemente, nossa saúde física.

A mente da mulher parece trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, impulsionando-a a fazer sempre um pouco mais, enquanto seu corpo geme silenciosamente. Ouço muito a frase: “Está tudo sob controle, porque divido os afazeres e as atividades com meu companheiro, mas que muitas vezes não conseguimos enxergar é que não estamos falando apenas de sobrecarga de trabalho físico. Estamos falando também de carga mental, do excesso de preocupações e de responsabilidades que continuam ocupando nossos pensamentos, mesmo quando as tarefas são divididas.

Desde maio de 2026, as empresas passaram a ter novas exigências relacionadas à gestão dos riscos psicossociais no trabalho, com a atualização da NR-1. E aqui entro em um ponto que pode soar polêmico, mas a responsabilidade pelo adoecimento não pode ser atribuída apenas às empresas. Nós, mulheres, também precisamos refletir sobre os limites que, muitas vezes, ultrapassamos sem perceber. E eu me incluo nesse cenário, porque passei por esse cenário.

Do ponto de vista corporativo, pela minha experiência, muitas vezes cheguei a questionar: será que as empresas realmente querem resolver esse problema? Afinal, o mundo corporativo gira em torno de resultados e em grandes organizações, o fantasma do burnout pode encontrar uma de suas portas de entrada nas decisões da alta liderança, muitas vezes concentradas em poucos nomes que determinam os rumos dos negócios, que refletem em toda organização. Quando falo toda organização, estou me referindo a milhares de vidas, pessoas que são impactadas com aquele “desejo”ou decisão do projeto.

Não estou generalizando, mas compartilhando situações que pude vivenciar ao longo da minha trajetória. A melhor forma que encontrei para ilustrar esse cenário foi por meio desta charge, que representa como o fantasma do burnout pode entrar no ambiente de trabalho.

É nesse momento que as lideranças começam a sangrar. A cobrança ganha forma, cresce e se transforma em algo semelhante a um furacão, que vai assustando todos ao redor. Alguns tentam fugir para se proteger; outros decidem enfrentar a tempestade. Então começam as disputas de ego, a competição por resultados e a necessidade de demonstrar quem consegue entregar mais. A liderança, mesmo ferida, começa a envolver mais pessoas e, consequentemente, acabam ferindo também aqueles que estão ao seu redor. Até que essa rotina se torna naturalizada. Quando percebemos, todos estão dentro da mesma bolha, sangrando e adoecendo.

Atualmente encontrar líderes que enfrentem esse cenário de frente, preservando a saúde mental e a qualidade de vida de suas equipes, nem sempre é fácil. Muitas vezes, o foco está tão concentrado nos resultados que cuidar das pessoas acabam ficando em segundo plano, e a tão falada, liderança humanizada, desaparece.

Mas onde fica aquela cultura organizacional tão bonita, exposta na intranet e nas paredes das empresas? A cultura existe, existe apenas no discurso bonito. A mudança não precisa partir apenas de normas e discursos corporativos. Ela também precisa acontecer por meio das atitudes de quem trabalha e, principalmente, de quem lidera. É preciso ter coragem para dizer: “Não! Minha equipe não consegue entregar nessas condições. Não posso sacrificar a saúde das pessoas em nome dos resultados.”

E essa reflexão sobre o mundo corporativo é justamente para entendermos o que está acontecendo com as mulheres além do cargo.

Pesquisas sobre esgotamento profissional apontam uma frequência maior de burnout relatado entre mulheres em determinadas populações. Além das exigências do trabalho, muitas enfrentam fatores adicionais de sobrecarga, como a dupla jornada e a responsabilidade pelo cuidado familiar. Mesmo sangrando e sobrecarregadas, continuamos, muitas vezes, cegas, buscando cada vez mais crescimento profissional, porque acreditamos que o próximo cargo, a próxima conquista ou o reconhecimento tão esperado finalmente trarão satisfação profissional e tão sonhada realização pessoal.

Ao longo da minha jornada, comecei a perceber que aquela busca constante não estava necessariamente me levando ao topo, mas me aproximando de um abismo. Meu ponto não é sobre deixar de trabalhar, ou abrir mão de uma carreira profissional. É sobre equilíbrio, saúde mental, olhar para si e tempo de qualidade com a família, afinal, o tempo é a única coisa que não podemos comprar.

O nosso papel na sociedade não é apenas questionar as empresas sobre o fantasma do burnout ou implementar novas normas. Precisamos também reconhecer que nem sempre percebemos quando estamos nos aproximando dessa porta. Às vezes, é a necessidade financeira outras vezes, é o desejo de reconhecimento, o ego ou a busca pela realização profissional.Mas reconhecer nossos limites também é uma forma de coragem.

Não podemos controlar todas as circunstâncias, porém precisamos questionar aquelas que colocam nossa saúde em risco, e eu não sei qual cenário você tem enfrentado, mas sei que mudanças precisam acontecer, tanto nas organizações quanto na maneira como lidamos com nossas próprias exigências e escolhas. Talvez o que você precise neste momento seja de força. Força para questionar metas absurdas, força para estabelecer limites e força para dizer “não”, sem que isso signifique abrir mão do seu valor. Precisamos construir ambientes em que seja possível dizer “não” sem sofrer punições por isso.

Se você se identificou com algum ponto deste artigo e sente que precisa de uma mudança, busque apoio. Procurar um psicólogo pode ser um primeiro passo importante para compreender o que está acontecendo e encontrar caminhos para cuidar da sua saúde mental.

Você pode ocupar muitos lugares na vida, mas não pode deixar de ocupar um lugar na sua própria história.

Ana Paula AK

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