Na tarde dominical em que os salões do Circolo Italiano se abriram mais uma vez para receber a música que atravessa gerações, o tenor Felipe Menegat voltou a comprovar por que seu nome se tornou sinônimo de emoção e refinamento na cena lírica brasileira. No tradicional espaço que ocupa o primeiro andar do Edifício Itália, na Avenida Ipiranga, região central de São Paulo, o artista conduziu o público por uma viagem sonora que homenageou a canção italiana e reafirmou os laços afetivos que unem a comunidade descendente de imigrantes às suas raízes culturais. Foi ali, entre lustres, molduras e a arquitetura que testemunha mais de um século de história, que Menegat entregou, uma vez mais, aquilo que se tornou sua marca: a capacidade de transformar cada apresentação em experiência sensorial completa.
O Circolo Italiano não é um palco qualquer. Fundado em 1911 como espaço de convivência para imigrantes italianos e seus descendentes, o clube carrega em suas paredes a memória de bailes, conferências e celebrações que atravessaram o século passado, inclusive uma recepção, ainda nos primeiros anos de existência da instituição, ao compositor Pietro Mascagni, quando este visitou a capital paulista. Cantar naquele salão, portanto, é dialogar com uma tradição que remonta às origens da própria imigração italiana no Brasil. Foi exatamente esse diálogo que Felipe Menegat buscou construir em seu repertório, inspirado na atmosfera inconfundível do Festival de San Remo, o mais célebre evento musical da Itália, que desde a década de 1950 consagra clássicos que se tornaram parte da alma popular italiana. Ao trazer essas canções para o coração da São Paulo italiana, o tenor não apenas entreteve: reconectou memórias, despertou lembranças de infância entre os presentes e reafirmou o papel da música como guardiã de identidade.
Quem acompanha a trajetória de Menegat sabe que essa não foi uma apresentação isolada, mas parte de uma jornada artística construída com constância e paixão desde a infância. O tenor deu seus primeiros passos na música ainda criança, aos oito anos de idade, quando interpretou a “Ave Maria” de Schubert em uma igreja, episódio que ele próprio descreve como o marco fundador de sua vocação e que resultou em sua primeira gravação profissional. Como o próprio artista já revelou em entrevistas, a experiência religiosa e a musicalidade se entrelaçaram desde muito jovem em sua formação, moldando uma sensibilidade que hoje se manifesta em cada nota sustentada, em cada fraseado que ele constrói com precisão e entrega emocional. Não por acaso, o próprio Menegat costuma citar Andrea Bocelli como uma de suas grandes referências, sobretudo pela apresentação histórica do tenor italiano diante do Papa João Paulo II, no Jubileu do ano 2000, um momento que, segundo suas próprias palavras, permanece como fonte de inspiração constante.
Essa relação entre fé, memória afetiva e técnica vocal apurada ficou evidente no salão do Circolo Italiano. Menegat não apenas cantou: interpretou. Há uma diferença sutil, mas fundamental, entre essas duas ações, e é justamente nela que reside o segredo de seu sucesso reiterado em diferentes palcos da cidade. Em apresentações recentes, como a turnê “Romance”, realizada no Teatro Unibes, e o show “Portofino”, no sofisticado espaço Cantaloup, o tenor já havia demonstrado essa versatilidade que lhe permite transitar do repertório sacro ao romântico, do clássico italiano às canções popularizadas internacionalmente por vozes como a de Frank Sinatra, de quem recentemente relançou uma releitura de “Fly Me to the Moon”. No Circolo Italiano, essa pluralidade se manifestou de forma especialmente tocante, com o público reagindo com aplausos calorosos a cada canção que evocava a saudade da terra natal de seus antepassados.
A crítica especializada e os veículos que acompanham a carreira do tenor têm destacado, com frequência, essa combinação rara entre potência vocal e delicadeza interpretativa. Descrito como um “fenômeno da música erudita” por publicações que cobrem seus espetáculos, Menegat construiu uma carreira que já o levou a turnês pela Itália e a colaborações emblemáticas, como o encontro com o trio Il Volo, um dos conjuntos vocais mais celebrados do cenário lírico-popular internacional. Esse tipo de reconhecimento não surge por acaso: é fruto de um trabalho de aprimoramento contínuo, que combina disciplina técnica com autenticidade emocional, duas qualidades que, juntas, explicam por que suas apresentações costumam esgotar ingressos e gerar filas de espectadores em busca de um encontro mais próximo com o artista ao final dos espetáculos.
No caso específico da apresentação no Circolo Italiano, o cenário histórico do clube parece ter funcionado como caixa de ressonância perfeita para o tipo de emoção que Menegat sabe provocar. Cantar peças ligadas ao imaginário de San Remo naquele ambiente é reencontrar, em plena metrópole paulista, um pedaço da Itália que muitos frequentadores do Circolo carregam apenas em relatos de avós e fotografias antigas. A música, nesse sentido, funcionou como ponte temporal: trouxe à superfície memórias de uma Itália que muitos dos presentes talvez nunca tenham visitado, mas que reconhecem como parte de sua própria formação identitária, transmitida através de gerações de imigrantes que fizeram de São Paulo sua nova casa sem nunca abandonar completamente a antiga.
É esse tipo de conexão – entre passado e presente, entre memória coletiva e experiência individual – que parece definir o estilo de Felipe Menegat como artista. Mais do que um intérprete de talento vocal indiscutível, ele se consolida como um narrador de histórias que atravessam décadas e fronteiras, capaz de fazer com que uma canção italiana ganhe novo significado para uma platéia brasileira. O sucesso obtido no salão nobre do Circolo Italiano confirma, assim, uma trajetória em ascensão constante, marcada por apresentações que se multiplicam por diferentes espaços da capital paulista. Se há algo que a apresentação deixou claro, é que o lirismo de Menegat não é apenas técnica: é, sobretudo, um convite renovado à emoção compartilhada, que segue conquistando novos e antigos admiradores a cada apresentação.