Na noite de 10 de setembro de 2026, a Sala São Paulo assistiu a algo que ultrapassa a categoria de concerto e ingressa no território raro da experiência coletiva de luto transformado em arte. Sob a regência de Marin Alsop, discípula de Leonard Bernstein, ex-diretora musical da própria Osesp entre 2011 e 2019 e uma das batutas mais respeitadas do repertório norte-americano contemporâneo, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, o Coro da Osesp e o Coro Infantil da Osesp se uniram para interpretar On the Transmigration of Souls (“Da Transmigração de Almas”), de John Adams, véspera simbólica dos vinte e cinco anos dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Não é exagero afirmar que poucas obras do repertório sinfônico contemporâneo carregam um encargo tão delicado quanto esta. Encomendada à Filarmônica de Nova York para marcar o primeiro aniversário dos ataques às Torres Gêmeas, a peça de Adams recusa deliberadamente o caminho fácil do requiem tradicional ou da grandiloquência épica. Em seu lugar, o compositor tece uma colcha sonora feita de fragmentos: nomes de vítimas sussurrados, trechos de cartazes de “procurados” espalhados pela cidade em busca de desaparecidos, o rumor urbano de Nova York capturado em fita pré-gravada, sobre os quais orquestra e vozes (adultas e infantis) erguem-se em camadas que menos contam uma história do que habitam um estado de espírito. É música pensada não para explicar a tragédia, mas para dar-lhe um lugar onde possa, finalmente, ser sentida sem pressa e sem a obrigação de se resolver em consolo fácil.
A inclusão do Coro Infantil da Osesp nessa arquitetura sonora não é detalhe menor. Vozes de crianças, na partitura de Adams, funcionam como contraponto de pureza e continuidade: onde o coro adulto e a orquestra evocam o peso do luto coletivo, as vozes infantis insinuam a permanência da vida que segue, o futuro que teima em nascer mesmo depois da perda mais brutal. É um recurso composicional de rara eficácia dramática, e a resposta dos meninos e meninas do coro paulistano, na noite de estreia, confirmou por que essa escolha permanece, mais de duas décadas depois, uma das decisões mais comoventes já tomadas pelo compositor.
Há um dado que confere ainda mais camadas de significado à noite paulistana: a relação entre Marin Alsop e John Adams não é a de uma intérprete ocasional diante de uma partitura estrangeira, mas a de uma amizade artística que atravessa mais de trinta anos. Alsop começou a dedicar-se à obra de Adams ainda em seus tempos à frente do Cabrillo Music Festival, na Califórnia, e desde então tornou-se uma das vozes mais autorizadas do mundo para interpretá-lo, tanto que o próprio compositor já declarou publicamente que poucos regentes compreendem tão profundamente suas intenções quanto ela, chegando a afirmar que Alsop “sabe o que eu quero” e “entende” sua música como poucos. Essa intimidade artística, construída ao longo de décadas de colaboração, convívio e admiração mútua, transparece de maneira quase palpável quando ela empunha a batuta diante de uma partitura de Adams: não há distância a vencer entre intérprete e compositor, apenas uma compreensão que dispensa intermediações.
Foi essa cumplicidade rara que a plateia paulistana pôde sentir na pele. Sob o comando de Alsop, os silêncios da obra, tão importantes quanto suas notas, ganharam peso quase físico: o público da Sala São Paulo pareceu suspender a respiração nos vãos entre as frases corais, como se qualquer ruído pudesse romper algo frágil demais para ser interrompido.
Foi visível, e talvez inevitável, a emoção que tomou conta de todos os presentes. Músicos da orquestra trocavam olhares breves nos momentos de maior tensão harmônica; integrantes do coro adulto seguravam a voz em pontos de particular densidade textual; e a própria regente, em ao menos um instante da execução, permitiu-se uma pausa quase imperceptível antes de reencontrar o pulso da obra — um gesto que, longe de comprometer a interpretação, a humanizou ainda mais diante do público. Na plateia, lenços discretos e olhos marejados confirmaram o que já se sabia antes mesmo do primeiro acorde: esta não seria uma noite de aplausos calorosos e efusivos, mas de silêncio respeitoso, o tipo de reação que só a grande arte, quando toca ferida verdadeira, é capaz de provocar.
Há uma tradição estética que sustenta ser impossível representar adequadamente o horror através da arte, que toda tentativa corre o risco de banalizar aquilo que pretende homenagear. On the Transmigration of Souls enfrenta esse dilema de frente e encontra uma resposta convincente: não tentar representar o evento, mas construir um espaço sonoro onde a memória coletiva possa, momentaneamente, repousar. Nesse sentido, a apresentação da Osesp cumpriu com distinção sua função mais nobre: não apenas a de recordar uma data, mas a de lembrar por que a música orquestral segue sendo, mesmo em tempos de tantos outros estímulos, um dos instrumentos mais eficazes de que a civilização dispõe para processar aquilo que as palavras, sozinhas, não alcançam.
Testemunhar isso ao vivo é experimentar a música em seu propósito mais elevado: não apenas emocionar, mas transformar a dor compartilhada em memória digna. Fique atento à programação da Osesp e não perca as próximas apresentações desta temporada excepcional na Sala São Paulo.
SP Notícias – Intellectus ex veritate