Clarice vê estrelas: o olhar que se volta para dentro

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Estreado mundialmente na 50ª Mostra de São Paulo, o longa de Letícia Pires usa a moldura da fantasia infantil para tratar de pertencimento, autoestima e reconhecimento, temas que a filosofia discute há séculos

Há obras que se anunciam como infantis e, por isso mesmo, desarmam as defesas do espectador adulto. “Clarice Vê Estrelas”, de Letícia Pires, pertence a essa linhagem. A estreia mundial ocorreu em 15 de outubro, na Sala São Paulo, na abertura da 3ª Mostrinha, programação infantil da 50ª Mostra Internacional de Cinema. A fábula parte de um episódio doméstico de aparência modesta e conduz, por vias simbólicas, a uma pergunta de calado fundo filosófico: como alguém aprende a se ver, a se nomear e a reconhecer o próprio valor quando o mundo parece olhar para outro lado?

O argumento é simples e, por isso, eficaz. Clarice, menina negra prestes a completar oito anos, vê a rotina virar de cabeça para baixo com a chegada de um irmão. Após uma discussão com a mãe, é levada ao sótão para guardar brinquedos e ali encontra um livro misterioso, que a transporta ao Circo Aquarius. No universo encantado, enfrenta medos, raiva e ciúmes, “tantos outros sentimentos que nem sabia nomear”, como diz a sinopse oficial da Mostra.

A expressão merece atenção. O que não se sabe nomear tampouco se sabe governar. Spinoza, na “Ética”, sustentava que a servidão humana consiste em ser conduzido pelos afetos sem compreendê-los, e que a liberdade começa quando uma paixão se converte em ideia clara e distinta. A trajetória de Clarice, nesse registro, é pedagogia dos afetos: o ciúme deixa de ser uma tempestade anônima e torna-se objeto de conhecimento, e isso já é o início de um poder sobre si.

O título condensa uma imagem rica. Ver estrelas é, a um só tempo, olhar para o alto e para dentro. Kant escreveu, na conclusão da “Crítica da razão prática”, que duas coisas lhe enchiam o ânimo de admiração sempre nova: o céu estrelado acima de si e a lei moral dentro de si. A coincidência não precisa ser tratada como filiação direta, mas ela ilumina a estrutura da obra. A menina que contempla o firmamento é a mesma que, aos poucos, descobre o próprio firmamento interior, isto é, uma dignidade que não depende de concessão alheia.

A tradição filosófica tem nome para esse movimento. Sócrates, no frontão de Delfos, encontrava o preceito “conhece-te a ti mesmo”, e Platão, no “Alcibíades”, sugere que o olho só se vê refletido na pupila de outro olho: o autoconhecimento é uma prática dialógica, mediada. Em Clarice, a mediação é a trupe circense, que, segundo a apresentação oficial, a ajuda a descobrir que “o amor e a coragem, guiados pelas estrelas, podem iluminar qualquer caminho”. O mestre, aqui, não ensina um conteúdo: sustenta um espaço em que a menina pode olhar.

A autoestima, contudo, não é um fenômeno meramente psicológico, e a obra parece sabê-lo. Os materiais de divulgação situam a protagonista como uma criança que se sente deslocada e invisível, e apontam que o filme aborda temas como pertencimento, preconceito e racismo. A diretora descreve a jornada como “uma metáfora do amadurecimento”, que convida a refletir sobre mudanças, aceitação do novo e respeito à ancestralidade.

Aqui a filosofia política do reconhecimento oferece chave de leitura. Hegel, na dialética do senhor e do escravo, mostra que a consciência de si só se consolida quando é reconhecida por outra consciência. Axel Honneth, retomando essa herança, distingue três esferas: o amor, que forma a autoconfiança; o direito, que forma o autorrespeito; e a estima social, que forma a autoestima. Charles Taylor adverte que o reconhecimento falho ou ausente é uma forma de opressão, pois aprisiona alguém numa imagem diminuída de si. Para uma criança negra, esse risco tem endereço histórico preciso. Frantz Fanon descreveu o instante em que o olhar do outro fixa o sujeito numa imagem que ele não escolheu, e Sartre, em “O ser e o nada”, já havia mostrado que o olhar alheio é capaz de converter-nos em objeto.

Nesse horizonte, a autoestima que o filme celebra distancia-se do voluntarismo ligeiro dos manuais de autoajuda. Não se trata de decretar “gosto de mim” diante do espelho. Trata-se de reconstruir, pela experiência do acolhimento, as condições sociais sob as quais o sujeito pode legitimamente afirmar o próprio valor. A fantasia, nesse caso, cumpre a função que Bachelard atribuía à imaginação: abre um espaço em que a vida pode ser outra, e é com base nessa abertura que a vida real se refaz.

O Circo Aquarius é descrito, nas fontes, como “um lugar onde todas as diferenças brilham”. A escolha do circo não é neutra. Tradicionalmente, o circo é a casa dos corpos que escapam à norma: o equilibrista, o gigante, a mulher barbada, o palhaço. Michel Foucault chamou de heterotopias aqueles lugares reais que funcionam como contraespaços, onde as regras do mundo ordinário são suspensas, invertidas ou reveladas. Aquarius pode ser lido assim: um território onde a diferença deixa de ser estigma e converte-se em talento.

Há nisso uma lição ética com raízes aristotélicas. Para Aristóteles, a excelência humana, a “areté”, consiste em realizar plenamente a função própria de cada ser. O florescimento, a “eudaimonia”, não é uniformização, e sim realização singular. Quando a trupe acolhe Clarice, não lhe pede que se adapte a um molde; reconhece nela uma potência específica. É também a ideia que a tradição existencialista, de Kierkegaard a Sartre, formulou de outro modo: cada um é chamado a tornar-se quem é, e essa tarefa é intransferível.

A cena final desse percurso, que não cabe antecipar em linhas de análise, tem o mérito de recusar a solução fácil. A autoestima que emerge da jornada não parece ser conquista de uma vitória, e sim a capacidade de suportar a própria complexidade: ciúme e afeto, raiva e ternura, medo e coragem coexistem. Nietzsche, que via no “tornar-se quem se é” a tarefa suprema, observava que isso exige afirmar a vida inteira, inclusive o que dói. A obra, ao tratar sentimentos incômodos como matéria de crescimento e não como defeito, parece caminhar nessa direção.

A classificação é livre e a duração, de 95 minutos. A apresentação do filme como “para toda a família” é acertada em sentido mais amplo do que a de um rótulo de mercado. A tradição da literatura infantil, de Lewis Carroll a Saint-Exupéry, mostra que as narrativas voltadas à infância, quando bem escritas, funcionam como filosofia por outros meios: dizem às crianças que o mundo é sério e aos adultos que a seriedade pode ser lúdica.

O filme tem produção da Luminar, com coprodução de Globo Filmes, Bruno Gagliasso Filmes, Instituto Vini Jr., Rio Filme, Aurora E² e Brisa Filmes. O roteiro é de Letícia Pires, com Claudia Sardinha e Pedro Alvarenga, e o elenco é encabeçado por Dandara Arcebispo, em sua estreia, ao lado de Heloísa Jorge, Clayton Nascimento, Teca Pereira e Hilton Cobra. A obra também integra a Competição Novos Diretores da Mostra. A distribuição é da Descoloniza Filmes, que a trata como principal aposta de 2026, e a estreia comercial está prevista para 3 de dezembro de 2026.

Convém, porém, manter a cautela que o ensaio exige. Este texto lê a obra a partir de seu argumento e dos materiais públicos, e as interpretações filosóficas aqui propostas são leituras, não afirmações sobre intenções declaradas da cineasta. Boas obras toleram, e até convidam, múltiplas interpretações.

A Mostra reúne novas sessões de “Clarice Vê Estrelas” até 28 de outubro de 2026:

– 17 de outubro, às 11h, no Cine Tutu.
– 17 de outubro, às 15h50, no Solar Sala Petrobras.
– 18 de outubro, às 15h, no Cinesesc.
– 19 de outubro, às 17h30, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, sala 3.
– 28 de outubro, às 13h, no Spcine CEU Butantã.

No fim, a obra devolve ao espectador uma interrogação antiga: o que vemos quando nos vemos? Ensinar uma criança a olhar as estrelas é ensiná-la a reconhecer que o brilho não é privilégio de poucos. Educar para a autoestima, nesse sentido, equivale a educar para a liberdade.

 

SP Notícias – Intellectus ex Veritate

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