Foto: Ali Karakas
Na coletiva da segunda temporada, Aly Muritiba, Matheus Nachtergaele e Roberta Rodrigues falaram sobre sonhos, milícias e resistência
A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para, da HBO Max, estreia em 8 de novembro. Na coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (27), em São Paulo, estiveram presentes o diretor Aly Muritiba e integrantes do elenco, entre eles Matheus Nachtergaele, Alexandre Rodrigues, Roberta Rodrigues, Sabrina Rosa e Luellem de Castro.
Com seis episódios gravados no Rio de Janeiro e em São Paulo, a temporada começa após a morte de Curió, chefe do tráfico, e acompanha a disputa pelo comando da comunidade. Berenice (Roberta Rodrigues), recém-eleita vereadora, enfrenta a corrupção política e o avanço da milícia. Jerusa (Andréia Horta) busca vingança pela destruição de sua família, enquanto Leka (Luellem de Castro) encontra no funk e nos bailes uma forma de aproximar os moradores e alimentar a esperança.
Ao acompanhar essa nova fase da história, fiquei pensando em como uma comunidade pode acabar associada a uma única imagem. Quando se fala em Cidade de Deus, é comum lembrar da violência e do tráfico retratados no filme de 2002. Mas uma comunidade nunca é feita de uma coisa só. Ali também há pessoas que estudam, trabalham, cuidam da família, fazem planos e sonham. Nesse sentido, é inegável que o filme abriu, mundialmente, as janelas das comunidades para um recorte, até então, inédito. O antigo cartão-postal estampado até no Museu da Cruz Vermelha em Genebra, como ápice da ausência estatal e refúgio da criminalidade, começou a experimentar uma metamorfose visual e, sobretudo, contextual. Todos puderam ver que no morro há pessoas, acima dos estigmas que as determinam. Sonhos, anseios e uma vida honesta, que apenas convive geograficamente com a criminalidade, mas, na verdade, é sua principal vítima.
A série não ignora a violência. A disputa pelo território e a presença das milícias continuam no centro da trama. Mas abre espaço para olhar também para quem vive em meio a esses conflitos e para as histórias que não cabem na imagem de uma comunidade definida apenas pelo crime. Em experiência profissional anterior, tive a oportunidade de manter contato com menores infratores, muitos vindos de comunidades gerenciadas pelo crime organizado. O recolhimento desses menores é a consequência, a ponta do iceberg social cuja raiz está brilhantemente inserida na proposta literária da série “Cidade de Deus”. Seja cooptado pelo tráfico ou pelas milícias, o jovem acaba sofrendo na pele o que Taine já lecionava há anos, em uma verdadeira releitura contemporânea do Determinismo.
Na coletiva, Aly Muritiba falou sobre o cuidado para que os jovens ligados ao tráfico não fossem reduzidos ao papel de “braço armado” da história. A equipe procurou mostrar também seus desejos e projetos: personagens que escrevem funk, soltam pipa ou sonham em abrir uma lan house, por exemplo.
A expressão “braço armado” ficou comigo. Ela resume o risco de enxergar esses jovens somente pela violência que os cerca, sem perceber que também têm sonhos e uma vida interior. Mostrar essa complexidade não apaga a realidade do tráfico; acrescenta outras dimensões a ela.
Matheus Nachtergaele, que retorna como Cenoura após interpretar o personagem no filme, destacou que a temporada aborda a formação das milícias e as relações entre crime e poder político. Para o ator, a ficção não resolve esses problemas, mas pode colocá-los em discussão.
Roberta Rodrigues falou de Berenice como uma mulher que resiste e luta por justiça. Recém-eleita vereadora, ela precisa enfrentar forças ligadas à corrupção e aprender a agir politicamente para alcançar o que deseja.
Talvez seja esse o convite da série: olhar para a Cidade de Deus por inteiro. Reconhecer a violência e os conflitos, mas também as pessoas, seus sonhos e as formas de resistência que constroem no cotidiano.
A luta não para. E as histórias de uma comunidade não cabem em uma imagem só.
O filme Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, recebeu quatro indicações ao Oscar em 2004: direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem.