A explosão no Jaguaré já matou duas pessoas e a Sabesp registra quatro mortes em acidentes desde 2025

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A morte de Francisco Altino, de 62 anos, morador do bairro do Jaguaré na zona oeste de São Paulo, confirmada pelo governador Tarcísio de Freitas na tarde de quinta-feira, 14 de maio, transforma a explosão que sacudiu o bairro na última segunda-feira em uma tragédia de dupla dimensão humana. Francisco Altino estava internado no Hospital Regional de Osasco, para onde havia sido encaminhado em estado grave logo após a explosão provocada pelo rompimento de uma tubulação de gás da Comgás durante obra da Sabesp na Rua Floresto Bandecchi. Ele não resistiu aos ferimentos e faleceu ao longo da quinta-feira, tornando-se a segunda vítima fatal do acidente, após Alex Sandro Fernandes Nunes, de 47 anos, morto no local na segunda-feira. Junto com as duas mortes fatais, o número de imóveis interditados subiu de 20 para 27, à medida que a perícia de engenharia identificou danos estruturais adicionais, especialmente rachaduras que apareceram nas fundações e paredes de imóveis vizinhos nos dias seguintes à explosão.

O dado que o G1 publicou nesta sexta-feira adiciona uma camada de contexto que eleva o nível de urgência da questão muito além do episódio específico do Jaguaré: a Sabesp registrou quatro mortes em acidentes relacionados a obras e estruturas desde 2025, enquanto a concessionária de metrô ViaMobilidade registrou três casos no mesmo período. A soma de sete mortes em acidentes associados a obras e infraestrutura gerida por concessionárias do governo estadual de São Paulo em pouco mais de um ano é um padrão estatístico que exige ser tratado como problema sistêmico de gestão de segurança operacional, não como série de eventos isolados e infortúnios imprevisíveis.

A distinção entre acidente imprevisível e falha sistêmica é juridicamente relevante e moralmente essencial. Um acidente imprevisível é aquele para o qual não existem protocolos, indicadores ou histórico que permitissem antecipar e evitar o evento. Uma falha sistêmica é aquela em que o evento, embora individualmente inesperado, era previsível como categoria de risco em razão de condições estruturais conhecidas e documentadas. A explosão do Jaguaré pertence, com clareza crescente à medida que os fatos emergem, à segunda categoria: as redes subterrâneas de infraestrutura de São Paulo são densas, antigas, mal cadastradas e operadas por concessionárias distintas sem protocolo unificado de localização e proteção mútua; as obras de escavação são contínuas e numerosas em toda a cidade; e a combinação dos dois fatores cria um risco recorrente que a perícia técnica de engenharia de infraestrutura urbana identificava como crítico muito antes de a explosão da última segunda-feira transformá-lo em pauta da imprensa.

O governador Tarcísio de Freitas, ao confirmar a segunda morte e ao admitir que os protocolos precisam ser revistos, adotou o tom correto diante da gravidade dos fatos. A suspensão de aproximadamente 30 obras da Sabesp com características semelhantes, determinada na semana passada, é uma medida emergencial que demonstra consciência do risco e boa-fé na gestão imediata da crise. O que Tarcísio precisará demonstrar nas semanas e meses seguintes, sob pressão das famílias das vítimas, da sociedade civil e de eventuais ações civis públicas, é que a revisão de protocolos vai além do plano formal e produz mudanças operacionais concretas: criação de um cadastro unificado e de atualização obrigatória de redes subterrâneas compartilhado entre Sabesp, Comgás, Enel, Claro, Vivo, a própria Metrô e as demais concessionárias que atuam no subsolo paulistano; obrigatoriedade de detecção eletrônica de redes antes de qualquer perfuração; e protocolo de emergência imediata para o caso de detecção de vazamento de gás durante obras de escavação.

As famílias de Alex Sandro Fernandes Nunes e Francisco Altino perderam seus parentes em circunstâncias que a lei brasileira classifica como resultado de atividade de risco, com responsabilidade objetiva das empresas envolvidas. A Sabesp e a Comgás reconheceram publicamente o ocorrido e anunciaram auxílio emergencial e ressarcimento. A dimensão moral e jurídica do que se deve às famílias, no entanto, vai além do pagamento: ela inclui a verdade sobre o que aconteceu, sobre quais protocolos foram ou não foram seguidos, sobre quem sabia do risco e o tolerou, e sobre o que será feito diferente para que Francisco Altino e Alex Sandro não sejam apenas nomes em um cadastro de vítimas que nenhuma lição aprende.

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