Há algo inquietante no cenário artístico brasileiro contemporâneo. Não se trata da ausência de artistas talentosos, nem da falta de recursos técnicos ou de espaços culturais. O que parece faltar é algo mais profundo: uma concepção elevada da arte. Uma arte que não exista apenas para provocar, desconstruir ou entreter, mas que também seja capaz de elevar, reconciliar e apontar para aquilo que eleve o homem.
O pensador britânico Roger Scruton observava que a cultura ocidental passou por uma espécie de “fuga da beleza”. Segundo ele, grande parte da arte contemporânea abandonou a busca pelo belo como valor essencial, substituindo-a pelo culto da transgressão, do choque e da ruptura permanente. A beleza deixou de ser vista como um ideal a ser perseguido e passou a ser considerada suspeita, antiquada, ou, até mesmo, irrelevante.
No Brasil, essa tendência assumiu contornos ainda mais evidentes. A produção artística frequentemente parece incapaz de dialogar com a tradição sem ironizá-la. O sagrado é tratado com desconfiança; a herança cultural, com constrangimento; a busca pela excelência, muitas vezes, com indiferença. Em nome da originalidade, perdeu-se o vínculo com aquilo que durante séculos alimentou as grandes obras da humanidade: o desejo de contemplar a verdade pela lente da beleza.
Entretanto, a arte não nasceu para ser apenas um espelho das deformações humanas. Ela nasceu também para revelar possibilidades de ordem, significado e, até mesmo, de salvação. Scruton defendia que a experiência estética possui uma dimensão moral e espiritual, porque nos convida a olhar o mundo não como consumidores, mas como contempladores. A beleza nos retira do ego e nos conduz ao encontro com algo maior do que nós mesmos.
Essa percepção encontra eco também na obra de outro pensador inglês: Chesterton. Para ele, o problema do homem moderno não é a falta de novidades, mas a perda da capacidade de maravilhar-se. Chesterton compreendia que a verdadeira arte nasce do assombro diante da realidade. Enquanto o cínico enxerga apenas matéria e acaso, o artista autêntico percebe mistério, significado e gratidão. Lição, inclusive, herdada dos ancestrais romanos, que prenunciavam a função social da arte, traduzida no famoso lema miscuere utile dolci, que forjava o desiderato de educar, ensinar e, até mesmo, admoestar, por meio da arte.
Talvez seja justamente essa arte que não existe no Brasil, ou que existe apenas em pequenos refúgios, longe dos centros de validação cultural. Uma arte que não tenha vergonha da beleza. Que não considere a transcendência um escândalo intelectual. Que compreenda que tradição não é repetição mecânica, mas continuidade viva de uma obra, de uma história. Uma arte capaz de emocionar sem vulgarizar, de questionar sem destruir e de inovar sem renegar suas raízes.
Nenhuma civilização sobrevive apenas de técnica, consumo ou ideologia. Toda grande cultura precisa de símbolos, narrativas e obras que expressem aquilo que há de mais elevado na experiência humana. Quando a arte abandona essa missão, ela pode continuar produzindo ruído, mas deixa de produzir sentido.
O Brasil possui músicos, escritores, pintores e arquitetos capazes de realizar essa tarefa. O que talvez falte não sejam artistas, mas um ambiente cultural disposto a reconhecer novamente que a beleza não é um luxo. É uma necessidade da alma.
E enquanto essa arte continuar ausente dos grandes palcos e instituições, permanecerá a sensação de que o país produz muitas obras, mas poucas verdadeiramente memoráveis; muita expressão, mas pouca contemplação; muito discurso, mas quase nenhuma beleza. E a afirmativa de Dostoievski em nosso tempo tornar-se uma indagação: a beleza salvará o mundo?