
Especialistas apontam melhora no mercado internacional, mas alertam que custos elevados e remuneração da cana ainda limitam a capacidade de investimento dos produtores
A recuperação das cotações internacionais do açúcar e a situação financeira dos produtores de cana estiveram no centro do painel sobre as perspectivas para a safra 2026/27, realizado nesta segunda-feira, 26 de outubro, durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo. Embora os participantes tenham identificado sinais de melhora no mercado, também destacaram que a valorização do produto não se traduz automaticamente em maior renda ou capacidade de investimento no campo.
O debate reuniu Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, e Paulo Leal, presidente da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (FEPLANA), com mediação de Luiz Gustavo Wiechoreki, coordenador-geral de Cana-de-açúcar e Agroenergia do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A discussão abordou as cotações do açúcar, o mercado de etanol, os custos de produção e a necessidade de renovar os canaviais.
Na avaliação de Nastari, o setor sucroenergético demonstrou capacidade de recuperação após enfrentar dificuldades ao longo de 2026. Ele afirmou que os preços do açúcar negociados em Nova York avançaram de cerca de 13,5 centavos de dólar por libra-peso, em junho, para uma faixa entre 20 e 21 centavos. No mercado interno, acrescentou, a reação do consumo de etanol e a redução da produção teriam contribuído para manter os estoques sob controle até o fim da entressafra.
O executivo também questionou os efeitos de intervenções nos preços dos combustíveis e de subvenções sobre a competitividade do etanol. Segundo Nastari, essas medidas, em um ano eleitoral, teriam limitado uma valorização que, em sua avaliação, deveria ocorrer de forma orgânica.
Pela perspectiva dos fornecedores de cana, a melhora nas cotações não resolve, por si só, a pressão financeira enfrentada pelos produtores. Leal afirmou que manter a produtividade exige despesas elevadas com os tratos culturais e a renovação dos canaviais. Segundo ele, a safra começou com expectativa de produtividade próxima a 80 toneladas por hectare, enquanto os preços pagos pela cana no Centro-Sul estariam entre R$ 100 e R$ 110 por tonelada.
“Uma recuperação de preços não significa automaticamente a recuperação financeira do produtor”, afirmou Leal. A diferença entre a valorização de uma commodity e a renda efetivamente recebida por quem produz foi um dos pontos centrais do debate. Custos de insumos, manutenção das lavouras, condições de financiamento e investimentos necessários à renovação podem limitar o resultado econômico, mesmo quando há melhora nas cotações.
Paulo Leal também ressaltou a dimensão do investimento necessário para preservar a produtividade dos canaviais. De acordo com ele, é preciso reformar anualmente entre 12% e 20% das áreas para assegurar a renovação e sustentar o crescimento da cadeia produtiva. A decisão de renovar depende, entre outros fatores, da disponibilidade de recursos e da perspectiva de retorno; por isso, preços melhores precisam ser avaliados em relação aos custos e ao tempo necessário para recuperar o investimento.
As falas dos participantes apontam para um cenário de recuperação ainda desigual. De um lado, a alta das cotações internacionais e a situação do mercado interno de etanol foram apresentadas como sinais favoráveis. De outro, a remuneração dos fornecedores e os custos associados à produção continuam influenciando a capacidade de manter e ampliar a atividade. O equilíbrio entre oferta, demanda e retorno econômico tende, assim, a pesar nas decisões de produção e comercialização ao longo da safra.
Realizada nos dias 26 e 27 de outubro, no Grand Hyatt Hotel, em São Paulo, a conferência reúne representantes do setor, produtores, especialistas e autoridades para discutir a safra 2026/27 e os rumos do açúcar e do etanol. A programação inclui ainda debates sobre políticas para combustíveis, ampliação do uso do etanol, combustível sustentável de aviação, descarbonização do transporte marítimo, tecnologia agrícola e financiamento.
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