No Concerto da Série Sinfonia Popular, três regentes se revezaram sob a direção artística do Maestro Roberto Farias e conduziram o público por um percurso afetivo pelo repertório nacional.
Na noite de 23 de outubro, o Teatro Procópio Ferreira, no Guarujá, tornou-se o ponto de encontro entre a tradição bandística e a alma musical do Brasil. A Banda Sinfônica de Cubatão apresentou o 2º Concerto da Série Sinfonia Popular, iniciativa dedicada à democratização da música sinfônica. O programa tinha entrada gratuita e o lema “Um tributo à Música Brasileira”. Reuniu clássicos do repertório nacional e cumpriu a promessa de levar arte, cultura e música a todos.
A Sinfonia Popular nasce de uma convicção generosa: a grande música não pertence a poucos. Ao abrir as portas de um teatro tradicional sem cobrança de ingresso, a série aproxima de seu público natural uma linguagem que muitas vezes parece distante. A realização contou com recursos da Funarte, que celebra 50 anos, e do Ministério da Cultura, com a participação da Prefeitura do Guarujá. A sala cheia aguardava com a expectativa das grandes ocasiões. Quando as luzes se recolheram e os músicos ocuparam seus lugares, fez-se aquele silêncio denso que antecede o som e que já é parte do espetáculo.
Parte I: a abertura com Roberto Farias
Coube ao Maestro Roberto Farias, diretor artístico do projeto, conduzir a primeira parte. Ele abriu o programa com Il Guarany, de Antônio Carlos Gomes, página emblemática do romantismo brasileiro. Desde os primeiros compassos, instalou-se entre palco e plateia uma cumplicidade rara. Seguiu-se Ibis Escarlate, de Fernando Britto, que trouxe cores mais recentes ao programa.
Veio então a Suíte Piratiningana, de Sérgio de Vasconcellos-Corrêa, em seus três movimentos: Dobrado, Chôro e Baião. O dobrado, tão caro às bandas, estabeleceu um laço imediato com a tradição do conjunto. O chôro pediu ginga e lirismo, e as madeiras brilharam em passagens de grande agilidade. O baião encerrou o bloco com vivacidade rítmica, e a plateia já acompanhava o compasso com os pés. A condução de Farias uniu rigor e calor humano, com atenção às frases e às dinâmicas.
Parte II: Marcos Sadao Shirakawa e a diversidade brasileira
A segunda parte esteve sob a regência de Marcos Sadao Shirakawa, que apresentou um mosaico de paisagens sonoras. Abriu com Djopoi, de E. Villani-Côrtes, compositor reconhecido pela sensibilidade melódica. Depois veio o maxixe Festa de Quintal, de R. Tacuchian, página alegre e saborosa que evoca as festas populares e arrancou sorrisos do público.
O momento seguinte homenageou Luiz Gonzaga com Gonzaga em Tom Maior, em arranjo de N. Liberalquino. O universo do Rei do Baião ganhou vestes sinfônicas sem perder o sotaque nordestino. O bloco se encerrou com a Suíte Nordestina, de J. Ursicino Silva, o “Duda”, que celebra a riqueza rítmica e melódica de uma região inteira. Shirakawa conduziu com precisão e imaginação e deu a cada peça seu caráter próprio. A banda passou da ternura à festa com naturalidade admirável.
Parte III: André Farias e o desfecho
A terceira parte ficou com André Farias, que reuniu algumas das criações mais amadas da música brasileira. Começou com Mourão, de Guerra-Peixe, nome central da escola nacionalista, em que a força rítmica e o sabor modal ganharam presença vigorosa. Veio então Ponteio, de Edu Lobo, canção que marcou época e que, em versão instrumental, deixou ainda mais evidente a beleza de sua melodia.
Em seguida, Bebê, de Hermeto Pascoal, trouxe a criatividade inquieta de um dos maiores gênios da música do país. A peça exige agilidade e imaginação, e os músicos corresponderam com entusiasmo. Para o encerramento, a escolha não poderia ser mais certeira: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, hino afetivo que o público reconhece desde os primeiros compassos. A emoção tomou conta do teatro.
Um dos grandes méritos da noite foi o tratamento instrumental dado ao repertório. Obras de origens tão distintas, do cânone romântico à canção popular, da suíte nacionalista ao universo inventivo de Hermeto, foram vestidas com a sonoridade plena de uma banda sinfônica. Madeiras, metais e percussão dialogaram com clareza. Os arranjos valorizaram as melodias sem apagar o frescor de cada obra.
Houve solos de grande beleza, recebidos com aplausos calorosos, e momentos em que a banda inteira soou como um único instrumento, fruto de horas incontáveis de ensaio e de uma convivência construída com dedicação. A alternância entre os três regentes deu ao concerto um dinamismo especial. Cada maestro trouxe uma energia distinta, e a banda manteve a mesma coesão e a mesma generosidade.
O que tornou a noite inesquecível foi a emoção que atravessou a sala. Bastava olhar para a plateia para compreender a força do que se passava: pessoas de olhos fechados, mãos entrelaçadas, sorrisos discretos ao reconhecer uma melodia querida e olhos marejados nos momentos de maior ternura.
Quando soaram os últimos acordes de Aquarela do Brasil, houve um breve instante de silêncio, seguido de uma ovação prolongada. O público, de pé, aplaudiu músicos, regentes e direção artística com a gratidão de quem recebeu mais do que esperava.