A situação de Sérgio Hondjakoff em A Fazenda 18 permite uma reflexão importante porque coloca, diante de milhões de espectadores, uma pessoa com uma história pública de dependência química dentro de um programa de entretenimento, competição, exposição e julgamento público.
É importante separar duas questões: o tratamento de uma dependência pela política de saúde mental e a maneira como a televisão transforma uma trajetória de dependência em narrativa televisiva.
Reflexão: dependência química entre o cuidado e o espetáculo
A Lei nº 10.216/2001 marcou uma mudança importante na assistência em saúde mental brasileira, orientando a proteção de direitos, a dignidade e o redirecionamento do modelo assistencial. Posteriormente, a RAPS passou a organizar uma rede de cuidados para pessoas com sofrimento mental e necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, com princípios como autonomia, cuidado integral, combate ao estigma e atenção humanizada.
Nesse sentido, a dependência química não deveria ser compreendida apenas como um problema moral, falta de caráter ou comportamento inadequado. Ela envolve uma condição complexa, que pode exigir acompanhamento psicológico, médico, social, familiar e comunitário.
É justamente aí que a exposição de Sérgio Hondjakoff na televisão provoca uma questão: o que acontece quando uma história de sofrimento, tratamento e recuperação deixa de estar somente no campo do cuidado e passa a fazer parte de um produto de entretenimento?
Sérgio já havia tornado pública sua trajetória de problemas relacionados ao uso de substâncias e passou por períodos de tratamento. Em 2023, a própria Record noticiou sua alta após dez meses em uma clínica de reabilitação. Em 2026, sua história de dependência voltou a ser mencionada pelos próprios participantes de A Fazenda 18, sendo associada à ideia de superação e reconstrução da vida.
Isso produz uma ambiguidade interessante.
Por um lado, a televisão pode humanizar.
Pode mostrar que uma pessoa que enfrentou dependência não precisa permanecer definida pelo período mais difícil de sua vida. Pode apresentar recuperação, reconstrução de vínculos, retorno ao trabalho e possibilidade de novos projetos.
Por outro lado, a televisão também pode transformar sofrimento em narrativa.
O participante deixa de ser observado somente como sujeito em recuperação e passa a ser observado como personagem: aquele que precisa surpreender, provocar, vencer, perder, emocionar, gerar audiência e produzir acontecimentos.
E existe uma diferença fundamental entre:
“Esta pessoa tem uma história de dependência.”
e
“Esta pessoa é a sua dependência.”
A primeira formulação reconhece uma história.
A segunda reduz o sujeito à doença.
O paradoxo pós-Reforma Psiquiátrica
Talvez esse seja o ponto mais interessante para uma discussão acadêmica ou clínica.
A Reforma Psiquiátrica brasileira procurou deslocar o sujeito do lugar de objeto de isolamento para o lugar de sujeito de direitos, autonomia e convivência social. A política atual do SUS mantém o princípio do cuidado em liberdade e organiza serviços comunitários para saúde mental e álcool e outras drogas.
Então podemos fazer uma pergunta provocativa:
A presença de uma pessoa em recuperação na televisão representa inclusão social ou uma nova forma de exposição do sofrimento?
Não existe necessariamente uma resposta única.
A inclusão social pressupõe que a pessoa possa voltar à vida, trabalhar, relacionar-se, divertir-se e ocupar espaços sociais sem ser eternamente identificada pelo seu diagnóstico ou passado.
Mas a exposição televisiva acrescenta outra dimensão: existe uma câmera, existe audiência, existe edição e existe uma lógica de entretenimento.
Por isso, o problema não é simplesmente “Sérgio estar na televisão”. A questão é como sua história é enquadrada e compreendida pelo público.
A dependência como espetáculo
Quando um comportamento considerado inadequado aparece em um reality, existe uma tendência de o público perguntar:
“Ele está recaindo?”
“Será que voltou a usar?”
“Isso é consequência da dependência?”
“Ele está preparado para estar ali?”
“A produção deveria intervir?”
“Ele está sendo tratado como participante ou como alguém que precisa de cuidado?”
Essas perguntas demonstram como ainda existe uma dificuldade social em diferenciar comportamento, diagnóstico, recaída, sofrimento psíquico e responsabilidade pessoal.
Além disso, acontecimentos recentes envolvendo Sérgio dentro do reality passaram a ser amplamente discutidos pela imprensa e pelo público. Isso mostra como, em um reality, qualquer comportamento pode rapidamente ser transformado em julgamento público.
Um ponto clínico importante
Também é preciso ter cuidado para não interpretar automaticamente todo comportamento inadequado de Sérgio como consequência de sua dependência química.
Isso seria outra forma de estigmatização.
Uma pessoa com histórico de dependência continua sendo uma pessoa complexa, com personalidade, desejos, conflitos, responsabilidades, limites e escolhas. Nem todo comportamento decorre da droga; nem toda dificuldade significa recaída; e não é possível estabelecer um diagnóstico ou estado clínico apenas pela observação televisiva.
Essa distinção é essencial para uma abordagem psicológica responsável.
A grande questão para a televisão
Talvez a televisão brasileira esteja diante de uma oportunidade educativa:
Em vez de perguntar apenas “o que há de errado com esse sujeito?”, poderia perguntar “o que a sociedade aprendeu — ou ainda não aprendeu — sobre dependência química?”
A mídia pode contribuir para reduzir o estigma quando apresenta recuperação como processo, reconhece a complexidade da dependência e evita transformar o sofrimento em caricatura.
Mas pode fazer o contrário quando transforma a pessoa em “o dependente”, “o ex-viciado”, “o problemático” ou “o personagem da recuperação”.
A própria política brasileira de saúde mental estabelece como diretrizes o respeito à autonomia, os direitos humanos, o combate ao estigma e uma atenção humanizada.
Uma reflexão para palestra ou grupo
“Depois da Reforma Psiquiátrica, aprendemos que uma pessoa em sofrimento não deve ser retirada da sociedade para ser cuidada. Mas, quando essa pessoa retorna à sociedade e entra em um programa de televisão, precisamos perguntar: estamos realmente promovendo inclusão ou estamos transformando sua história de sofrimento em entretenimento?”
E talvez a pergunta mais profunda seja:
“Quando uma pessoa consegue sair do lugar de ‘dependente químico’ e voltar a ocupar o lugar de cidadão, profissional, pai, artista ou participante da sociedade, conseguimos enxergá-la para além da sua doença?”
No caso de Sérgio Hondjakoff, essa pergunta é particularmente pertinente porque sua trajetória pública mostra justamente uma passagem entre crise, tratamento, recuperação, reconstrução profissional e agora exposição em um reality. A televisão pode mostrar essa trajetória como possibilidade de reconstrução — mas também precisa reconhecer que recuperação não é espetáculo e que a dignidade do sujeito não pode depender da audiência.
Para uma discussão em Psicologia, eu resumiria o tema em três palavras:
Cuidado — Exposição — Autonomia.
A questão central é descobrir onde termina o entretenimento e começa a responsabilidade social diante do sofrimento humano.