Entre as cinzas e a fé

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Escrevo este breve artigo com o coração voltado ao alto — Sursum corda —, como quem apela a Deus por uma região que respira e vive intensamente a fé e os valores da cristandade. O incêndio que atingiu a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, em Flores da Cunha, causou comoção não apenas pela perda histórica e arquitetônica, mas sobretudo pelo impacto espiritual que aquela cena provocou em tantos fiéis espalhados pelo mundo. Ver um templo centenário envolto em chamas é como assistir a uma parte da memória de um povo sendo consumida diante dos olhos.

A tragédia imediatamente trouxe-me à memória o incêndio da Catedral de Notre-Dame de Paris, em 2019. Naquele momento, o mundo inteiro parou diante das imagens da histórica catedral em chamas. Não era apenas um patrimônio arquitetônico que queimava, parecia que a própria história espiritual da humanidade estava ferida. Em Flores da Cunha, guardadas as proporções, o sentimento foi semelhante. O silêncio, as lágrimas e a perplexidade revelaram algo profundo: certas igrejas deixam de ser apenas construções e tornam-se parte da alma de um povo. Algo vivo, uma herança espiritual, por assim dizer.

Existe, porém, um significado espiritual escondido entre as cinzas e talvez o maior erro seja pensar que a Igreja está limitada às paredes de pedra. E, no caso do templo sagrado de Flores da Cunha, cuidado pela congregação dos capuchinhos, filhos de São Francisco de Assis, é impossível não recordar o apelo do próprio Cristo diante da Cruz de São Damião: “Francisco, reconstrói a minha Igreja”.

Sem dúvida, esse fato levou-me a uma profunda reflexão: um templo que pega fogo pode também apontar para uma necessária reconstrução interior em minha vida e em minhas ações diárias. O fogo revela a limitação da matéria. Mas a essência do cristianismo permanece viva no altar que é o próprio Cristo, Aquele que jamais se desfaz.

Assim também ocorreu com Notre-Dame: o mundo inteiro contemplou o altar permanecer de pé e viu surgir um movimento de reconstrução, união e esperança. Em Flores da Cunha, talvez este seja o convite espiritual escondido na dor: compreender que Deus continua presente mesmo quando tudo parece destruído.

O Cristo permanece! A cruz permanece!
A esperança permanece!

Vivemos um tempo em que muitas pessoas perderam o sentido espiritual da vida. Igrejas queimadas acabam tornando-se também metáforas de um mundo interior enfraquecido, de uma humanidade que frequentemente se distancia do sagrado.

Talvez por isso acontecimentos assim provoquem tanta comoção: eles despertam algo adormecido dentro da alma humana. Fazem lembrar que o homem necessita de transcendência, de silêncio e de eternidade.

O incêndio da igreja de Flores da Cunha não deve ser lembrado apenas como uma tragédia temporal. Ele pode tornar-se símbolo de uma renovação espiritual. Porque Deus, muitas vezes, permite que determinadas estruturas caiam para reconstruir algo ainda mais profundo dentro do coração e da alma humana.

Entre as cinzas de Flores da Cunha e as de Notre-Dame, permanece a mesma mensagem silenciosa: o fogo pode tocar os templos, mas jamais destruir aquilo que nasce de Deus.

“Eis que faço novas todas as coisas.”
(Apocalipse 21,5)

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