O caso do Banco Master, investigação que começou como uma questão de irregularidades na gestão de uma instituição financeira e que se expandiu, fase a fase da Operação Compliance Zero, para revelar um esquema de fraude sistêmica de proporções bilionárias, alcançou nesta semana uma dimensão política que pode redefinir a geometria do campo bolsonarista às vésperas da eleição presidencial de outubro. A Polícia Federal, conforme apurado pelo The Intercept Brasil e confirmado em investigações paralelas de outros veículos, suspeita que recursos vinculados a Daniel Vorcaro, fundador e ex-controlador do Banco Master, foram utilizados para financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele reside desde fevereiro de 2025, bem como para custear a produção e distribuição do filme “Dark Horse”, obra de propaganda política em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro produzida no período em que o processo judicial por tentativa de golpe de Estado tramitava no STF.
Os valores envolvidos, segundo as apurações publicadas, são de escala considerável mesmo para os padrões generosos do financiamento político americano: R$ 61 milhões transferidos por Vorcaro entre fevereiro e maio de 2025 a um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, fundo esse vinculado a aliados do campo bolsonarista no exterior. A estrutura de transferência, mediada por uma empresa denominada Entre Investimentos e Participações, foi projetada, segundo a PF, para criar distância entre a origem dos recursos, o Banco Master e as empresas do grupo de Vorcaro, e o destino político final, obscurecendo a natureza do fluxo financeiro e tornando mais difícil para os órgãos de controle identificar o vínculo entre o financiamento bancário irregular e o custeio de atividades políticas de um ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado.
A conexão entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, senador e principal pré-candidato do campo conservador à presidência da República, emergiu com violência informativa ainda mais perturbadora na quinta-feira, quando o G1 divulgou mensagens trocadas entre o banqueiro e o senador em que Flávio Bolsonaro pressionava Vorcaro pelo pagamento do R$ 61 milhões para o filme. As mensagens, obtidas no âmbito das investigações da Compliance Zero, mostram um senador da República em exercício de mandato utilizando sua posição de interlocutor de um dos candidatos mais cotados à presidência para pressionar um empresário preso por fraudes bilionárias a concluir um pagamento para a produção de conteúdo de propaganda política em favor de seu pai. A relação entre os dois homens, anteriormente descrita pelos aliados de Flávio como “relação entre correligionários no contexto de apoio político normal”, adquire com as mensagens uma concretude financeira e uma direção de poder que muda qualitativamente a natureza do que estava sendo descrito.
Para Flávio Bolsonaro, o timing das revelações é de uma inconveniência política de primeira grandeza. Líder nas pesquisas em São Paulo e empatado tecnicamente com Lula em Minas Gerais, segundo levantamentos divulgados nas últimas semanas, o senador construiu sua candidatura sobre a imagem do gestão honesta, do contraste com a corrupção que o PT representaria e do legado do bolsonarismo purificado dos excessos do episódio de 8 de janeiro. A revelação de que ele pessoalmente pressionou um banqueiro preso por fraudes para pagar dezenas de milhões de reais em um filme de propaganda do pai não é compatível com nenhuma dessas narrativas de maneira simples, e a geometria de como Flávio Bolsonaro reagirá a essa pressão nos próximos dias e semanas será um dos fatores mais determinantes da dinâmica eleitoral do segundo semestre.
A PF também investiga, neste mesmo contexto, se recursos de Vorcaro foram utilizados para custear as despesas correntes de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, filho do ex-presidente que se instalou em Miami em fevereiro de 2025 e que mantém intensa atividade política nos meios conservadores americanos. A investigação sobre o financiamento das atividades de Eduardo no exterior adiciona uma dimensão de potencial interferência estrangeira no processo político brasileiro que o TSE, sob a presidência de Nunes Marques, não poderá ignorar se as evidências se consolidarem nos autos.
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