Rosencrantz e Guildenstern estão mortos, obra-prima do dramaturgo britânico Sir Tom Stoppard, foi escrita em 1966 e estreada no Festival de Edimburgo em 24 de agosto do mesmo ano, a peça chegou ao National Theatre de Londres ainda naquele outono com uma recepção crítica que transformou Stoppard, então com 29 anos, de um jovem dramaturgo promissor em um dos escritores de teatro mais importantes da língua inglesa, posição que ocuparia com distinção crescente nas décadas seguintes. Agora, seis décadas depois de sua criação, a peça chega a São Paulo em montagem brasileira concebida por Rafael Gomes e Daniel Haidar, sob a direção de Dagoberto Feliz, com pré-estreia no Nu Cine Copan marcada para o domingo 24 de maio, dentro da programação gratuita do 3º Circuito Cultural Ticket, e temporada regular iniciando-se em 31 de maio com sessões dominicais às 20h30, estendendo-se até meados de julho.
Antes de apreciar a montagem, é preciso compreender a obra. Rosencrantz e Guildenstern estão mortos é, em sua estrutura formal, uma peça dentro de outra peça, ou mais precisamente, uma peça construída nos interstícios de outra que o espectador pressupõe conhecer. O argumento de Stoppard parte de um gesto de inversão hierárquica radical: ele escolhe como protagonistas dois personagens que em Hamlet, de Shakespeare, existem apenas como instrumentos narrativos descartáveis, dois amigos de infância do príncipe dinamarquês convocados pelo rei Cláudio para espioná-lo e conduzi-lo à morte. No universo shakespeariano, Rosencrantz e Guildenstern não têm interior, não têm dúvidas, não têm história: são engrenagens do mecanismo dramático alheio cuja função encerra com sua morte, mencionada quase de passagem por Hamlet no quinto ato. Stoppard pergunta, com a irreverência filosófica que caracteriza todo o seu teatro: e esses dois, o que pensavam? O que sentiam enquanto esperavam nas margens da tragédia de outro?
A resposta é um dos objetos teatrais mais complexos e estimulantes do século XX. Rosencrantz e Guildenstern estão mortos coloca os dois personagens em um espaço liminar, um não-lugar entre as cenas de Hamlet, onde eles aguardam uma convocação que nunca compreendem, executam ordens cujo sentido lhes escapa, e travam diálogos filosóficos de extraordinária densidade sobre identidade, livre-arbítrio, morte e a impossibilidade de conhecer o próprio destino. A influência de Samuel Beckett, especialmente de Esperando Godot, é reconhecida pela própria crítica e pelo próprio Stoppard: como Vladimir e Estragon, Rosencrantz e Guildenstern esperam algo que não saben nomear, em um cenário que não saben descrever, e cujo desfecho o título já anuncia ao espectador antes mesmo de o pano subir. Essa antecipação da morte como dado inicial, e não como surpresa dramática, é um dos procedimentos mais sofisticados da peça: o espectador assiste a dois homens vivendo sem saber que já estão mortos, condição que Stoppard empresta ao teatro a partir da filosofia existencialista de Sartre e Heidegger sobre a condição humana diante da temporalidade.anicabitten.
Tom Stoppard, nascido Tomáš Straussler em Zlín, na então Tchecoslováquia, em 3 de julho de 1937, é um dos raros dramaturgos do século XX que conseguiu combinar, sem hierarquia, o rigor intelectual com a comédia de linguagem, a análise filosófica com o entretenimento sofisticado. Sua trajetória inclui a autoria de Travesties (1974), Arcadia (1993), The Invention of Love (1997) e The Coast of Utopia (2002), trilogia que o consagrou definitivamente como o maior dramaturgo britânico vivo. Em paralelo, Stoppard construiu uma carreira cinematográfica de igual distinção, com créditos em Empire of the Sun de Spielberg, e a autoria do roteiro de Shakespeare in Love, filme que venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1999 e que apresentou seu nome ao grande público internacional que talvez não o conhecesse pela cena teatral. A peça Rosencrantz e Guildenstern estão mortos gerou ainda uma adaptação cinematográfica em 1990, dirigida pelo próprio Stoppard, com Gary Oldman no papel de Rosencrantz e Tim Roth como Guildenstern, vencedora do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o que confirma que a obra resiste com integridade à transposição de linguagens sem perder sua força perturbadora.
A montagem brasileira surge, segundo seus idealizadores Rafael Gomes e Daniel Haidar, como o que chamam de “lado B” da montagem de Hamlet, Sonhos que Virão, espetáculo que abriu o Nu Cine Copan em fevereiro de 2026 com Gabriel Leone no papel do príncipe dinamarquês e que transformou o espaço em ruínas do antigo cinema em um dos eventos teatrais mais comentados de São Paulo em anos recentes. A lógica dramatúrgica da relação entre as duas montagens é de uma beleza intelectual considerável: ao montar primeiro o Hamlet e depois o Rosencrantz e Guildenstern, a dupla de idealizadores oferece ao público a experiência rara de habitar duas perspectivas do mesmo universo narrativo em espaços físicos e temporais contíguos. Quem assistiu a Hamlet no mesmo Nu Cine Copan poderá reconhecer os espaços, os gestos, as referências, e perceber como o olhar de Stoppard sobre o drama shakespeariano ilumina retroativamente o que parecia periférico e descartável na tragédia original. Quem nunca assistiu a nenhuma das duas montagens encontrará em Rosencrantz e Guildenstern uma porta de entrada que exige menos do espectador do que a tragédia plena de Shakespeare, mas que oferece, na compensação, uma profundidade filosófica e uma ironia verbal que o grande teatro raramente consegue sustentar por toda a duração de um espetáculo.
O espaço escolhido para a montagem, o Nu Cine Copan, é em si mesmo um personagem com voz própria neste espetáculo. Localizado na Avenida Ipiranga, 200, no coração do Centro de São Paulo, dentro do Edifício Copan, a obra-prima modernista de Oscar Niemeyer inaugurada em 1966, o mesmo ano em que Stoppard estreou sua peça em Edimburgo, o antigo Cine Copan passou por décadas de abandono após ter sido transformado em espaço religioso evangélico nos anos 2000, e foi reaberto pelo Nubank com a identidade de Nu Cine Copan no início de 2026 como espaço cultural de vocação teatral e cinematográfica. A escolha de usar um cinema em ruínas como palco para espetáculos que falam de personagens condenados a existir à margem de uma narrativa que os ignora é, do ponto de vista da encenação site-specific, uma decisão estética de coerência admirável: o próprio espaço, com suas marcas do tempo, suas camadas de história sobrepostas e sua condição de transição entre o que foi e o que será, ressoa com a condição ontológica dos dois protagonistas de Stoppard, eternamente entre um ato e outro, entre uma convocação e outra, entre a vida e a morte que o título já anunciou.
A direção de Dagoberto Feliz, sobre a montagem concebida por Rafael Gomes e Daniel Haidar, tem diante de si o desafio mais estimulante que o teatro filosófico pode oferecer a um encenador: o de encontrar, em um texto de densidade intelectual raramente igualada no repertório dramático do século XX, o fio de emoção humana que impede o espetáculo de se tornar exercício acadêmico e o mantém vivo como experiência visceral para um espectador contemporâneo. A pré-estreia gratuita do 24 de maio, dentro do 3º Circuito Cultural Ticket, oferece ao público paulistano a possibilidade de encontrar esse fio antes de todo mundo.
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