Os resultados do Banco do Brasil no primeiro trimestre de 2026, divulgados na semana passada e amplamente repercutidos nesta quinta-feira pelo mercado financeiro, constituem um retrato de rara franqueza sobre os limites da expansão acelerada do crédito agrícola que marcou os anos de bonança do agronegócio brasileiro e que agora apresenta sua conta ao maior banco público do país. O lucro líquido recorrente da instituição no período de janeiro a março de 2026 foi de R$ 3,43 bilhões, queda de 53,5% em relação ao mesmo trimestre de 2025, quando a instituição havia registrado R$ 7,37 bilhões, e redução de 40,2% frente ao quarto trimestre do ano anterior. O número, que representa o pior desempenho trimestral do banco em anos, tem uma causa identificável e persistente: a inadimplência do segmento de agronegócio, que encerrou o primeiro trimestre com índice de 5,05% acima de 90 dias de atraso, elevação de 1,42 ponto percentual em relação ao início do ano e que não dá sinais de reversão no curto prazo.
A compreensão da crise de inadimplência do agronegócio brasileiro requer uma incursão nos ciclos econômicos que marcaram o setor na última década. Entre 2020 e 2023, o agronegócio viveu um ciclo excepcionalmente favorável: a alta do dólar valorizou as exportações de soja, milho, carne bovina e algodão; a abertura de novos mercados, especialmente na China, ampliou a demanda; e o crédito rural abundante e subsidiado, canalizado principalmente pelo Banco do Brasil, financiou a expansão da área plantada, a aquisição de maquinário sofisticado e o arrendamento de terras em condições que apenas faziam sentido econômico se os preços das commodities permanecessem nos patamares elevados que o ciclo favorável sustentava.
O ciclo se encerrou de forma abrupta em 2024 com a normalização dos preços internacionais das principais commodities exportadas pelo Brasil. A soja, que havia chegado a R$ 200 por saca em 2022, recuou para patamares entre R$ 80 e R$ 110 em 2024 e 2025. A queda não teria sido necessariamente catastrófica para produtores eficientes com margens de segurança adequadas. O problema é que boa parte da expansão do crédito do período anterior havia financiado produtores que operavam com margens estreitas e endividamento elevado, calculado com base na premissa de que os preços altos permaneceriam. Quando os preços caíram, a equação financeira de milhares de propriedades rurais se inverteu, transformando o crédito que havia financiado a expansão em dívida incompatível com o fluxo de caixa das operações a preços normalizados. O resultado foi uma explosão de recuperações judiciais no agronegócio: segundo a Serasa Experian, o setor concentrou 30,1% de todos os pedidos de recuperação judicial no Brasil em 2025, o maior índice entre todos os setores econômicos.
Para o Banco do Brasil, maior credor do agronegócio brasileiro, a concentração do crédito no setor que mais cresceu é, agora, o fator de maior vulnerabilidade. O banco respondeu ao agravamento da inadimplência com uma aceleração expressiva das judicializações de crédito: segundo a CEO da instituição, o número de ações judiciais de cobrança já superou, nos quatro primeiros meses de 2026, o total de todo o ano anterior. A judicialização é o instrumento de recuperação de crédito de último recurso, e seu uso acelerado indica que as tentativas de renegociação extrajudicial não foram suficientes para equacionar a inadimplência crescente de uma carteira que envolve clientes que, em muitos casos, simplesmente não têm a liquidez necessária para honrar os compromissos independentemente das condições de renegociação oferecidas.
A revisão do guidance para 2026, anunciada simultaneamente com os resultados do primeiro trimestre, foi recebida com preocupação pelo mercado de capitais: as ações BBAS3 oscilaram negativamente na sessão de segunda-feira após a divulgação, refletindo a percepção de que a crise do agronegócio ainda não atingiu seu pico de impacto sobre os balanços do banco. O governo federal, que detém participação majoritária no Banco do Brasil por meio do Tesouro Nacional, acompanha com atenção os resultados, pois a deterioração dos dividendos pagos pela instituição impacta diretamente as receitas do governo, que conta com esses dividendos em seu planejamento fiscal. É uma cadeia de interdependências que demonstra, uma vez mais, que os ciclos do agronegócio brasileiro não são apenas questão setorial: são, em suas ondas de ascensão e queda, um fator macroeconômico de primeira grandeza que o Brasil ainda não aprendeu a gerir com a antecedência e a prudência que sua importância exigiria.
Para análises econômicas que contexualizam os resultados das grandes empresas brasileiras em seu ambiente histórico e estrutural, leia o SP Notícias.
SP Notícias — Intellectus ex veritate