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A Ascensão, inserida na tessitura pascal, não é epílogo de ausência, mas cume de presença. Ao completar-se o quadragésimo dia a partir da Páscoa, cifra bíblica de maturação, trânsito e plenitude pedagógica, a Igreja confessa que o Ressuscitado é exaltado à destra do Pai, não para se evadir do humano, mas para assumi-lo em sua inteireza e introduzi-lo no seio da comunhão trinitária. Em termos clássicos, trata-se do movimento da exaltação que sucede a kenosis: Aquele que desceu até as profundezas ergue a natureza humana ao lugar da bênção, inaugurando, no Corpo, o destino do Corpo eclesial.

A liturgia da Palavra verte essa teologia com admirável sobriedade. Os Atos dos Apóstolos (1,1-11), em qualquer ano litúrgico, oferecem o núcleo narrativo: o mandato missionário, a promessa do Espírito e a nuvem que vela o olhar dos discípulos. A nuvem, na simbólica bíblica, não é apagamento; é epifania velada, sinal da presença divina que excede e purifica a visibilidade. Os “varões galileus” admoestam a Igreja a abandonar a curiosidade ansiosa e recuperar a postura do testemunho: por que fixar os olhos no céu como quem perdeu? O Senhor, que “assim” subiu, “assim” virá. Entre um “assim” e outro estende-se o tempo monástico por excelência: perseverança, oração comum, sobriedade e trabalho, no compasso da esperança.

O salmo responsorial, frequentemente o Salmo 47(46), convoca as nações ao aplauso sacro: “Deus se elevou entre aclamações, o Senhor ao som da trombeta.” A linguagem régia e cósmica não é ornato; insere a comunidade no horizonte do Pantocrator. É o mesmo eixo que orienta a peroração paulina em Efésios (1,17-23), quando o Apóstolo implora “espírito de sabedoria e revelação” para conhecer “a extraordinária grandeza do seu poder” que exaltou Cristo “acima de todo principado e potestade” e o constituiu Cabeça da Igreja, “que é o seu Corpo, a plenitude daquele que tudo preenche em tudo”. A Ascensão, assim, é eclesiologia: o Senhor reina em benefício do Corpo, e o Corpo vive de uma Cabeça entronizada que intercede, governa e comunica vida.

O Evangelho, conforme o ciclo, traz ou a magna comissão de Mateus (28,16-20), ou o final de Marcos (16,15-20), ou a bênção lucana em Betânia (24,46-53). Em todas as variantes ressoa o tríptico: Palavra interpretada (“era necessário que o Cristo padecesse”), Missão universal (“ide, ensinai, batizai”) e Presença (“estarei convosco”; o Senhor “cooperava com eles”). Não há hiato entre Ascensão e envio: a entronização do Cristo é simultaneamente instituição e garantia da missão. A promessa do Espírito, cujo advento celebramos em Pentecostes, desautoriza a leitura de uma Igreja órfã; somos antes a comunidade do Cenáculo, obediente e recolhida, capaz de transformar espera em intercessão, silêncio em lucidez e canto em parresia.

Neste ponto, a Regra de São Bento se revela notavelmente atual. O capítulo sobre a Oração (RB 20) exorta à compunção e à sobriedade; a distribuição das Horas (RB 16) organiza a vida segundo o ritmo da teofania: sete vezes por dia, e também na noite, elevamos o coração. Eis a forma beneditina de habitar o “entre” da Ascensão e de Pentecostes: uma Ecclesia orans, cujo labor é hino e cuja quietude é serviço. A “escada da humildade” (RB 7) descreve com precisão a dinâmica paradoxal da solenidade: ascende-se descendo. A altura de Cristo glorificado é precedida e, para nós, mediada pela descida quotidiana da vontade própria, pelo consentimento às mediações da obediência, pela conversatio morum que faz de cada dia uma Páscoa. O Abade, figura de Cristo no mosteiro (RB 2), governa não como dominador, mas como quem lava os pés; sua “sessão” é ministério. Tal chave hermenêutica preserva a liturgia da Ascensão de toda triunfalização mundana.

Também a hospitalidade (RB 53) ganha aqui relevo. Se “todo hóspede é recebido como o próprio Cristo”, a comunidade monástica se torna, no tempo entre a partida visível e a presença sacramental, ícone da acolhida do Ressuscitado no mundo. O mandato missionário não é negado pela clausura; é nele interiormente assumido como missão de interceder, formar, escutar e cantar, para que muitos, sustentados por um canto fiel, possam ir ao encontro dos confins da terra. Ora et labora: o labor do cor, disciplina, afinação, atenção ao texto, é serviço evangelizador por via contemplativa, conformando o coração ao ritmo do amor que sobe para servir melhor.

Do ponto de vista estritamente litúrgico, a solenidade exibe elementos próprios que espelham seu conteúdo. As vestes brancas situam-nos no âmbito da luz pascal; o círio pascal permanece aceso até Pentecostes, sublinhando a continuidade orgânica do mistério. O Prefácio da Ascensão é uma peça de teologia cantada: “Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, para que nós, membros do seu corpo, tivéssemos a firme esperança de segui-lo no mesmo caminho.” Na tradição gregoriana, os próprios do dia oferecem verdadeira catequese sonora.

Há, ainda, uma lição preciosa na tensão entre o olhar e os pés. Os anjos repreendem o olhar que se fixa no céu, mas a liturgia manda levantar o coração: Sursum corda. A fé beneditina sabe reconduzir os olhos ao serviço, sem renunciar à altura. “Corramos pelos caminhos dos mandamentos”, diz o Prólogo da Regra, “o coração dilatado pela inefável doçura do amor”. A Ascensão dilata o coração: não para evadir-se, mas para que caibam nele os encargos da missão, a rotina santificada, a paciência com os irmãos, o acolhimento dos pobres, a atenção à letra da lei e ao seu espírito. Também aqui minha formação jurídica ecoa discretamente: a Ascensão é a sessão solene do Senhor, que, entronizado, intercede por nós como sumo sacerdote e advogado; a vida eclesial, seu ius, deriva dessa fonte, não como dominação, mas como ordem de caridade que assegura a cada membro lugar, voz e responsabilidade.

Por fim, a solenidade educa a esperança. Entre a retirada do visível e a efusão do Espírito, a Igreja aprende a esperar com os recursos da tradição: lectio divina (RB 48), silêncio (RB 6), pontualidade no Ofício (RB 43), humildade no serviço. Não se trata de inação, mas de um tipo superior de atividade, naquela forma eminente de labor que é a oração coral – o opus Dei – cuja beleza é, ela mesma, argumento da fé. Quando o coro entoa “Psallite Deo, qui ascendit super caelos caelorum”, não descreve apenas um evento passado; participa sacramentalmente de um trânsito que define nossa identidade: chamados a ascender com Cristo pela escada da humildade, sustentados pela promessa do Espírito, enviados a todas as gentes com a força de um canto que é doutrina, de uma doutrina que é vida, e de uma vida que, em tudo, busca que Deus seja glorificado.

Assim, a Ascensão do Senhor, longe de ser conclusão, é princípio. Princípio de uma Igreja missionária que se sabe mística; de um mosteiro que se reconhece cenáculo; de um coro que aprende, na disciplina do belo, a caridade do comum; de um jurista que sabe que toda autoridade, para ser verdadeira, deve servir. Contemplar este mistério com São Bento é aprender o caminho mais curto e mais seguro: subir descendo, para que, um dia, aquilo que hoje cantamos em modo jubiloso se cumpra em modo de face a face. Até lá, perseveremos na obra de Deus, com os olhos erguidos e os pés firmes, porque o Senhor, Cabeça e Esposo, já nos precede, e é dele que recebemos o compasso, o tom e a lei do amor.

 

Maestro Marcelo Henrique de Carvalho

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